27/02/2019 Felipe Menhem

O que aprender para prosperar no novo ambiente de trabalho?

Como aquecimento para nossa participação no SXSW EDU 2019, vamos compartilhar ao longo dos próximos dias alguns dos aprendizados da edição passada.


Temos uma fascinação pela tecnologia e por prever o futuro. Pense em séries e filmes que faziam esse exercício de futurologia, pode ser ’“Os Jetsons” até “Minority Report”, passando por “Perdidos no Espaço”. Imaginamos como seria a interseção e a nossa interação com a tecnologia. Carros voadores, robôs fazendo o nosso trabalho, como as máquinas e sistemas se comportariam e como a gente se comportaria em relação aos sistemas e às maquinas?

Pense que em 1964, o escritor Isaac Asimov falava que “robôs ainda não serão algo comum ou muito avançado, mas já estarão presentes” e “instrumentos eletrônicos continuarão a ser criados para livrar os humanos de trabalhos tediosos”. Não sabemos qual era a régua de Asimov para “muito avançado”, mas é seguro dizer que em 2018, robôs são algo bastante comum e, porque não, estão avançados.

Ao ponto das escolas colocarem em seus currículos matérias como “linguagem de programação” e “computação”.  Subitamente, foi dito que todos nós precisamos aprender essas habilidades para mantermos nossos empregos ou, no pior dos casos, termos um emprego no futuro.

No entanto, em um cenário onde todas as pessoas irão saber as habilidades técnicas ou que as maquinas irão fazer o trabalho com essas habilidades, quais serão as características necessárias para o ambiente de trabalho do futuro? A resposta está nas habilidades sociais e comportamentais, as soft skills.

“Trabalhadores e trabalhadoras do futuro vão gastar mais tempo em atividades nas quais as máquinas são menos capazes de fazer, como gerenciar pessoas, aplicar a experiência, comunicar com outras pessoas. Essas pessoas vão gastar menos tempo em atividades físicas previsíveis e em coletar e processar dados, tarefas que as máquinas já são mais eficientes que o ser humano. As habilidades e capacidades necessárias também irão mudar, precisando mais de habilidades sociais e emocionais e mais capacidades cognitivas avançadas, como argumentação lógica e criatividade.” – Relatório Mckinsey

O ensino e desenvolvimento dessas habilidades foi um dos eixos centrais de discussão das conferências SXSW e SXSW EDU 2018. A discussão partiu em cima de algumas premissas: A requalificação da criatividade; a importância de “falhar rápido” e assimilar essa falha e, finalmente, o desenvolvimento de algumas habilidades fundamentais: o pensamento crítico, o trabalho em equipe e a resolução de problemas de forma criativa.

 

A requalificação da criatividade

O conceito de criatividade – e das pessoas criativas – está sendo revisto. Se antes a criatividade era um dom para pessoas selecionadas, agora está sendo conceituada como uma habilidade que pertence a todos. Habilidade, não dom, percebem a diferença? Na visão de Lucy L. Gilson e Nora Madjar, da Universidade do Connecticut, a criatividade pode ser dividida em dois grupos: radical e incremental.

A criatividade radical é a face “popular” da habilidade. É aquela onde colocamos Pablo Picasso, Steve Jobs, Marina Abramovic dentre outras pessoas e suas criações e formas de enxergar o mundo.

A criatividade incremental pode ser menos chamativa, mas é a forma que a grande maioria de projetos precisam continuar para prosperar. E essa forma vem da experiência, da tentativa e erro, da observação.

Ou seja, há espaço para a criatividade em todos os setores produtivos, de uma agência de publicidade à uma empresa de engenharia, passando por uma planta de fábrica. A criatividade incremental pode e deve ser incentivada no ambiente de trabalho e nas escolas.

 

“Nem todas as pessoas têm o que é necessário para fazer a revolução. Mas todos podem fazer a evolução”.

 

Tudo bem fracassar e perder

O excesso de proteção e o excesso de expectativas podem ser cruéis com o processo de aprendizado e com a auto-estima das pessoas. Em “The Gift of Failure” (aqui em português), a autora Jessica Lahey discute a influência das expectativas dos pais nas notas (e no aprendizado) dos seus filhos. Segundo Lahey, que também é professora, 20% dos seus alunos e alunas são recompensados financeiramente pelos pais quando tiram boas notas e 90% acham que são mais amados quando trazem boas notas.

O ponto aqui é a superproteção e o medo dos filhos falharem. Quando os pais tentam tirar a falha e a frustração da vida de seus filhos, eles acabam criando crianças incompetentes, incapazes, sem confiança e super dependentes. Logo, despreparadas para o mundo real, onde estamos propensos a falhar mais e onde temos mais coisas em jogo.

As habilidades do futuro

Já falamos algumas vezes sobre a importância das habilidades sociais nos dias atuais. Aqui, estressamos um pouco mais algumas dessas habilidades.

Pensamento crítico

O pensamento crítico é apenas processamento deliberado e sistemático de informações para que possamos tomar as melhores decisões e, em geral, entender melhor as coisas. Essas informações podem vir de várias fontes: jornais, filmes, revistas, conversas e, claro, através da nossa própria experiência de vida.

Considerando isso, ao invés de reagir sem pensar ao que vemos, ouvimos e discutimos, utilizando o pensamento crítico, podemos tomar um tempo para analisar o problema.

O pensamento crítico torna-se uma habilidade útil em diversas situações. Seja em novas formas de solucionar problemas e analisar situações no ambiente de trabalho/escolar/social ou dar recursos para analisar as informações que recebemos diariamente.

Existem diversas formas de desenvolver essa habilidade, mais notadamente:

 

Fazendo perguntas básicas – Frente a um problema, é importante pensar no que já sabemos sobre ele e como ficamos sabendo sobre ele – foi através da nossa própria experiência ou a experiência de terceiros -, o que é preciso provar, o que está sendo descartado, demonstrado e o que não está sendo visto.

Não dando nada como garantido – Mesmo sendo uma situação conhecida e que tem uma resposta/abordagem pronta, é importante questionar se essa é a melhor opção. Existe uma outra forma de abordar essa situação? Colocar uma interrogação no lugar de um ponto final pode abrir outras possibilidades.

Analisando os dados já existentes. Não faz sentido começar a resolver um problema do zero se alguém já passou por isso e pode compartilhar a experiência. No entanto, é importante analisar as informações de maneira crítica ou chegaremos nas conclusões erradas. Isso é particularmente importante em notícias que não tem fonte ou tem fontes genéricas, por exemplo. Por isso, é fundamental fazer uma análise sobre quem coletou esses dados, como esses dados foram coletados e qual foi a razão para isso.

Entendendo o nosso processo de pensamento e sabendo que ninguém consegue utilizar o pensamento crítico 100% do tempo. Afinal, somos humanos e humanos… humanizam as coisas. O pensamento crítico é uma ferramenta que precisa ser desenvolvida e, em diversos momentos, a emoção é mais forte do que a razão. Por isso, identifique esses momentos e tente evita-los no futuro.

 

Resolução de Problemas de forma criativa

Resolução de Problemas de forma criativa consiste no processo de redefinir os problemas e oportunidades e trazer respostas e soluções novas e inovadoras e tomar ação. É quase a amarração entre tudo o que foi dito, um guarda-chuva de outras habilidades como:

  • O aprendizado através do sucesso e do erro;
  • Trabalhar com equipes diversas;
  • Aprender de maneira independente (olá, “Existo, logo aprendo“);
  • Aceitar desafios e correr riscos;
  • Processar e investigar;
  • Pensamento inovador;
  • Persistência, garra e espírito empreendedor.

 

Há uma correlação entre aprender essa habilidade e o sucesso no ambiente de trabalho, segundo pesquisa feita pela Adobe.

  • 75% dos educadores e legisladores nos Estados Unidos afirmam que profissões que necessitam desta forma de resolução de problemas não deverão ser afetadas no futuro.
  • 92% dos educadores e 89% dos legisladores dizem que estudantes que se destacam na resolução criativa de problemas terão mais oportunidades de trabalhos com bons salários no futuro.
  • 90% dos educadores e 85% dos legisladores nos Estados Unidos dizem que essas habilidades estão em alta demanda pelos empregadores de hoje nas carreiras mais seniores.

Uma das formas de desenvolver a resolução de problemas de maneira criativa (e também o trabalho em equipe) é através de aprendizado baseado em problemas ou disciplinas transversais. Um dos exemplos mostrados no SXSW foi um workshop de cinco dias sobre biomimética, a capacidade de copiarmos elementos da natureza, onde os participantes deveriam sair com um projeto de uma exibição em três dimensões sobre transportes para um museu de ciências.

Ou seja, no final de tudo, fica claro que quanto mais a tecnologia e as ferramentas avançam, mais do que saber como operá-las, vamos precisar interpretar os dados e as relações que são feitas e apurar o que nos diferencia como espécie (e também das máquinas): a empatia e a capacidade de conectar pensamentos.

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