26/06/2019 Felipe Menhem

Liderança como provocação

Nosso octeto em ação, em 2017: Thiago Ceconi, Luciano Vieira, André Zappalenti, eu, André Rosa, Carol Balbi, Felipe Oliveira e Pedro Almeida.

Já falei por aqui mais de uma vez o quanto gostei de ler o “Yes to the Mess!”, especialmente as observações relacionadas à liderança e ao papel do líder. Ainda vamos falar sobre o fato de gastarmos tempo demais exaltando e discutindo “liderança” e dando pouca importância ao “seguir”.

Porém hoje, quero comentar rapidamente uma definição interessante que Frank J. Barrett traz para a mesa sobre liderança: a “Competência Provocativa”, ou a “habilidade de criar dissonâncias e discrepâncias que servem de gatilho para as pessoas se afastarem das posições habituais e dos padrões repetitivos”. Barrett diz que “Kind of Blue”, uma das obras-primas do Miles Davis, nasceu por causa das provocações do artista. Todas as músicas foram gravadas “de primeira”, os músicos tinham somente pedaços das partituras, e o mais importante: Miles acreditava que seus músicos eram capazes de dar o que ele queria.

Para Frank Barrett, a liderança precisa ser encarada como um exercício de design que permita o autodesenvolvimento das pessoas. Nesse caso, significa trabalhar com os recursos que temos à disposição, focar nas habilidades e nos pontos fortes das pessoas que fazem o nosso time e ir colocando pequenas doses de disrupção na rotina.

Sentindo a disrupção e a provocação na pele

Facilito o processo de aprendizagem nas organizações e nas pessoas de dia, e toco bateria toda terça-feira à noite em uma prática de banda de jazz. Definimos um repertório no começo do semestre, praticamos essas três ou quatro músicas semanalmente e nos apresentamos no fim do período.

Uma das grandes descobertas que tive nesses quase três anos de prática do estilo foi entender a alternância de papéis na música. Todos os músicos são líderes e seguidores. Você acompanha, vira solista por alguns compassos e volta para o acompanhamento. Não há escapatória, mesmo pra quem não se sente confortável solando, o que é meu caso. Você precisa aparecer e tocar. Ponto.

As doses de provocação e disrupção aparecem a todo momento, e o Luciano Vieira, nosso professor e diretor musical, sempre soube pontuá-las, tanto após as músicas, sugerindo novas abordagens para a próxima execução, como parando o ensaio e propondo uma nova forma para um solo.

Alguns desses feedbacks podem tirar as pessoas do lugar. Aconteceu comigo no ensaio final do semestre passado. Embananei-me durante meu solo em “Question and Answer”, do Pat Metheny. O Luciano identificou uma oportunidade de melhoria e sugeriu uma correção. Na hora, não reagi bem, mas tudo se resolveu com uma conversa madura. Ele sabia que eu conseguiria entregar o que ele queria. Eu também, mas não tinha entendido na hora. Desse momento, ficam algumas lições que podemos aplicar na vida corporativa:

  1. Comece devagar – entenda quem é quem no seu time, quais são os pontos fortes e fracos de cada um. Use as forças para resolver as fraquezas. No caso da música, eu consigo entregar um groove forte, mas ainda sou tímido no solo. Em vez de fazer qualquer coisa quando estou liderando a banda, comecei sendo incentivado a usar pequenas variações do groove como solo. Com o tempo, fui ganhando confiança e achando soluções para os novos caminhos.
  2. Mudanças vêm aos poucos e sempre — Em vez de mudar todo o andamento ou a estrutura de uma música, que tal começar aos poucos? Quebrar um grande problema em pequenos blocos pode ajudar na solução. Em um dia, pensamos em tocar uma música mais rápido ou mais devagar. No outro, trocamos a ordem dos solistas. Em um terceiro dia, arriscamos novas convenções. Pouco a pouco, mas sempre.
  3. Conversas maduras resolvem problemas – Como relatei, não reagi bem à forma do feedback e não me comportei da maneira adequada. No entanto, passados o ensaio e a apresentação, tive uma conversa madura com o Luciano, na qual pudemos falar de coração aberto sobre o que pode ser melhorado. Deixar a poeira baixar e ter uma conversa madura ajuda bastante no ambiente de trabalho e no sentimento de pertencimento na equipe.

Propor desafios e provocar é uma característica que pode fazer a diferença no desenvolvimento das pessoas. Que tal tentar?

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