13/01/2020 Felipe Menhem

Quando o processo de aprendizagem faz sentido

Esse vai ser um post diferente, porque vou trazer uma reflexão baseada em uma experiência pessoal.

Aproveitei o começo de 2019 e o começo de 2020 para mais uma incursão na marcenaria. Em 2018, escrevi algumas linhas sobre a primeira experiência aqui no blog da 42formas. Falei no meu blog sobre a segunda experiência, também no ano passado. Desta feita, a experiência foi sem nenhum tipo de assistência. Usei a oficina do meu tio e umas chapas de ipê e perobas que um dia foram seu piso para fazer uma bandeja e uma tábua.

O resultado foi ok, digo de um 6,5. Tive vários erros e percalços no caminho e um mar de distância entre a expectativa e a realidade, especialmente no projeto da tábua, que foi um tremendo teste de paciência.

No entanto, foi legal ter mais controle sobre o processo, mais familiaridade com as ferramentas e mais recursos e paciência para achar soluções para as coisas. E quero falar mais sobre esse último ponto.

O produto final

Eu cometi dois erros grosseiros, um na bandeja e outro na tábua. O da bandeja foi uma medida e um corte errado na largura. Já a tábua foi uma sucessão de pequenos percalços que resultaram em uma montagem irregular, horas no desengrosso e cortes não planejados. Em uma dessas passagens no desengrosso, uma das bordas se soltou e foi totalmente destruída.  E enquanto corrigia os erros, pensei na pergunta:

Por que sou mais tolerante com meus erros na marcenaria?

Essa pergunta pode ter uma resposta óbvia, algo como “é seu hobby”, mas não acho que é isso. Não ser uma atividade profissional ajuda muito, claro. Mas existe um outro ponto muito importante: na marcenaria, o erro é entendido como parte do processo, quase como um caminho para o produto final e isso te faz seguir em frente. Ele te dá a oportunidade pra rever os passos e testar novas soluções. Não é uma abordagem comum, afinal, na maioria das atividades o erro é geralmente visto como um desvio de padrão, uma perda de tempo.

Não estou dizendo que você ganha tempo errando na marcenaria, mas ele acelera a sua curva de aprendizagem, especialmente para quem está no começo dela. Qualquer momento dentro de uma oficina é uma nova descoberta: trabalhar com madeiras novas ou tentar construir coisas diferentes.

 

Além disso, é um ambiente onde aprendo 70% do tempo fazendo e 20% do tempo trocando com pessoas mais experientes: no meu caso, meus dois tios, um de cada lado da família. Cada um tem uma oficina, o Ângelo em Cunha/SP, o João em Itabirito/MG. São duas abordagens, experiências e tutorias diferentes.

Dentro de uma oficina, você precisa estar ali de corpo e alma, porque um descuido pode significar uma lesão grave. O foco é algo tão complicado nos dias atuais, que ter essa oportunidade também te mostra o valor do tempo e do esforço em cada momento ali dentro.

Pra fechar, seria ótimo se a gente conseguisse transpor esse “carinho” pelo erro e a valorização do processo de aprendizagem para as outras áreas da nossa vida. Isso não acontece por uma série de razões: cobrança, afirmação, não ver sentido na aprendizagem. Ressignificar a forma como vemos esse processo também vai ajudar a ressignificar nosso trabalho, nossas entregas e nosso propósito.

Eu tento fazer isso uma bandeja de cada vez.

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