18/06/2019 Felipe Menhem

Um novo olhar sobre tecnologias e aprendizagem

Há um tempo, Jane Bozarth tuitou duas boas provocações sobre tecnologia e aprendizagem: “Precisamos parar de falar ‘tecnologias de aprendizagem’ e começar a perguntar: ‘Como essa tecnologia pode ser usada para apoiar a aprendizagem?’”, para depois completar com: “Melhor: ‘Eu tenho um problema. Como a tecnologia pode me ajudar nisso?’”.

Eu adorei essa provocação. Vivemos uma relação conflituosa com a tecnologia, começando por uma confusão com a própria palavra. “Tecnologia” é um termo amplo; dicionários diferentes têm definições distintas, porém faz um tempo que virou sinônimo para qualquer coisa digital, especialmente no meio da educação e da aprendizagem. Não podemos esquecer que a lapiseira e o esquadro são tecnologias da mesma forma que machine learning ou um aplicativo para ensinar idiomas.

No entanto, tudo virou tecnologia, tudo depende da tecnologia, queremos confiar decisões para a tecnologia, e eu não quero demonizar a palavra ou o conceito. Pelo contrário, quero propor uma discussão sobre o tema, afinal esse estado atual das coisas faz com que a gente se esqueça de que muitos problemas podem ser solucionados de maneiras “não tecnológicas”. Nesse sentido, o post da Jane Bozarth sobre o assunto é preciso. Em “10 motivos pelos quais você não precisa de ‘tecnologias de aprendizagem’ para permitir o aprendizado no trabalho” (em inglês), os pontos importantes continuam sendo a mudança na cultura organizacional e o desenvolvimento de habilidades como autonomia e criatividade para que a aprendizagem aconteça.

 

Isso me leva a outra reflexão, baseada neste texto maravilhoso do Don Norman: “Por que as tecnologias ruins dominam nossas vidas”. É uma leitura interessantíssima, escrita por uma das sumidades do design e da interação, e que apresenta dois pontos importantes: por que estamos vivendo uma época dominada por tecnologia e podemos (re)inverter a ordem das prioridades, colocando pessoas e habilidades antes de máquinas e algoritmos.

 

Norman apresenta um bom argumento quando fala sobre a curiosidade humana: “A curiosidade é, no todo, uma virtude. Nos evoluímos para sermos curiosos e nosso sistema nervoso é especialmente sensível à mudança, e as mudanças no ambiente atraem nossa atenção. Mas a visão centrada na tecnologia lida com esse trato natural e criativo como uma falha: a curiosidade vira distração. Uma virtude humana transformou-se em passivo.”

 

E aí somos obrigados a utilizar softwares que nos obrigam a fazer tarefas repetitivas, que não permitem novas formas de trabalho; perdemos horas atualizando coisas, respondendo a e-mails, tentando acabar com qualquer forma de criatividade ou curiosidade possível.

 

Quando deveria ser o contrário.

 

É mais ou menos o que falei no post sobre proficiência digital. Quando pensei em usar o Slack ou o Basecamp na gestão de projetos, eu desconsiderei as pessoas e suas habilidades. Era como se eu tivesse a solução para um outro problema. Pense quantas vezes isso aconteceu com você, em sua organização. Ficamos encantados com a tecnologia, mas não pensamos se ela é útil para solucionar algum problema ou ampliar as nossas habilidades naturais.

 

Por isso, propomos um pensamento convergente com Don Norman e Jane Bozarth: coloque as pessoas no centro da discussão, entenda o problema ou o desafio e pense se a adoção de uma nova tecnologia expandirá nossas habilidades ou servirá para facilitar algum processo que permita o desenvolvimento das pessoas. Se a resposta for “sim”, é possível que você esteja no caminho certo.