O que o Jazz pode te ensinar sobre aprendizagem

22/09/2017
Posted in Do cotidiano
22/09/2017 Felipe Menhem

O que o Jazz pode te ensinar sobre aprendizagem

Eu toco bateria desde 1999. Durante alguns anos foi uma coisa semi-profissional, de resto, sou uma das maiores expressões do músico amador. E por uma questão de conforto, sempre variei entre o blues, o pop, o rock e o funk. Gosto especialmente deste último porque poucas coisas me deixam tão emocionado quanto o groove. Essa coisa abstrata, que é possível e impossível de definir. Quem já ouviu “Cissy Strut” do The Meters ou “Funky Drummer” do James Brown sabe do que estou falando. E acho que manter o groove é uma das funções mais nobres que um baterista pode ter. Junto com o baixista, a dupla perfeita pra fazer as coisas se desenrolarem numa música.

 

Mas na imensa maioria das vezes, esses estilos são previsíveis. A forma, a estrutura, a execução de uma música pop podem fazer o público dançar, mas não oferecem muitos desafios para o músico. Para mim não era um problema. Eu queria só fazer meu trabalho bem feito. Não gostava de solar, não gostava de muita pirotecnia, não queria aparecer mais do que o resto da banda. A perfeita definição de zona de conforto.

 

Nesse sentido, o jazz era uma utopia, um devaneio, um local que era impossível de ser explorado. Jamais teria a técnica, a desenvoltura necessária ou a coragem para se expor num estilo assim. Até o dia que resolvi tentar tocar, depois de ser convidado pelo Luciano Vieira, professor da prática de banda de Beatles que eu já participava. Essa primeir prática de banda me fez reaproximar do instrumento e da música. Quando o baterista da banda de jazz saiu, fui convidado. Eu topei, avisando que eu não sabia tocar. E aí, amigos, aí é que vem as lições, com dois anos de atraso.

 

Como identificar um potencial para aprendizagem

 

Eu começo colocando na conta do Luciano. Ele foi avisado que eu mal sabia fazer o compasso mais básico do estilo, mas isso não foi um impeditivo. Ou seja, ele identificou que eu poderia aprender a tocar jazz e teve a paciência para me guiar durante o processo. Algumas das características do bom educador passa por identificar oportunidades e potenciais de aprendizagem e dar o caminho e as ferramentas para facilitar isso.

 

A importância do ambiente de aprendizagem

 

Eu fui inserido naquele ambiente com músicos mais experientes do que eu. Dá para fazer duas analogias. A primeira, esse vídeo do TED-Ed com o baixista Victor Wooten. Nele, Wooten fala que deveríamos aprender música como aprendemos nosso primeiro idioma, incentivando os erros e conversando com pessoas fluentes na língua.

 

O segundo, pensando no modelo 70:20:10, é seguro dizer que 90% do meu aprendizado acontece nos ensaios. Afinal, tocar os temas e interagir com os outros músicos garante que estou aprendendo o estilo na prática. Naturalmente, os outros 10% vem dos estudos e referências que pesquiso em casa.

 

O Jazz estimula a colaboração

 

Muito falamos da colaboração nos diversos aspectos do ambiente profissional. E saibam, o jazz é uma das maiores expressões disso. Se você é músico, experimente fazer um ensaio de jazz. Se você não for, assista a um show e preste atenção nas interações dos músicos.

 

Há, obviamente, um tema e um caminho a ser seguido, mas ele é percorrido com muita improvisação, baseada nos solos dos músicos e em muita escuta. Você acaba prestando atenção nos estímulos e dicas que os outros músicos dão e você vai atrás deles.

 

É um ambiente que permite erros. E você aprende com eles.

Eu considero isso o maior dos aprendizados. Um dos meus confortos ao tocar música pop e rock, por exemplo, era saber que a forma “pré-moldada” da música, te dá pouca margem para erros. Sendo baterista então, você dificilmente fica “exposto”.

 

Ao assumir o desafio de tocar jazz, tive que testar as minhas habilidades e ferramentas em um outro campo. Eu tive que aprender a ficar confortável fazendo um solo. No meio desse processo é normal que você erre. No entanto, em um ambiente de estudo onde isso é permitido, não há outra alternativa a não ser aprender com eles.

 

E isso traz uma última e rápida lição sobre empatia e humildade. Se outros músicos são pacientes comigo, é necessário que eu seja paciente em ambientes onde eu sou mais experiente. E cada dia tenho mais certeza de que a melhor maneira de aprender é ensinando.

Existe um livro excelente sobre a relação entre jazz e gestão chamado “Yes to the Mess: Surprising Leadership Lessons from Jazz” escrito por Frank Barrett. Ainda falaremos sobre ele aqui.

Recomendo ler esse post de novo ouvindo “The Bridge”, do Sonny Rollins.

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