29/04/2019 Marcos Arthur

Por que(m) estou partindo por um novo desafio

"O progresso é impossível sem mudança, e aqueles que não conseguem mudar suas mentes não conseguem mudar nada."
George Bernard Shaw

Aos 39 anos, eu e minha companheira, Marina, decidimos ser pais. Não que ambos nunca tivéssemos pensado nisso na vida em momentos ou relacionamentos anteriores, apenas não tínhamos levado adiante o projeto. Decisão tomada, rapidamente fechamos negócio com a Cegonha, que nos trouxe o pequeno Otto cerca de dois meses depois que eu completei 40.

Por obra do destino (mentira, foi opção mesmo, já que em 2013 escolhi abrir minha própria empresa) tive a felicidade de tirar 20 dias de licença paternidade, quando a lei garante apenas cinco. No meu caso, esse seria o pior cenário possível, já que o bebê nasceu em uma quinta-feira, véspera de feriado, depois de aproximadamente 20 horas de intenso trabalho de parto. Na prática, eu teria dois dias úteis (incluindo a data do parto, que acompanhei segundo a segundo) e três dias de “folga” para aprender umas tantas funções de pai entre novidades a cada instante e noites mal dormidas.

E assim foi. Ao longo de 20 dias após o nascimento do Otto, permaneci o tempo todo ao lado dele e da minha companheira, cortando quase que totalmente o contato com o trabalho. Digo “quase” por dois motivos: o primeiro porque esse foi de fato o combinado com o time, que me apoiou incondicionalmente para que eu pudesse me dedicar ao que, dali em diante, seria o cargo mais importante da minha vida; e o segundo porque, embora estivesse fora do ambiente profissional, segui aprendendo, e muito. Afinal, para exercer a minha atual ocupação, não basta trabalhar com aprendizagem – é preciso vivê-la.

Eu disse “cargo”? Pois é, os que me conhecem minimamente sabem que não dou a mínima para denominações corporativas e postos hierárquicos, embora entenda e respeite as pessoas e as empresas que ainda precisam deles. Eu, por minha vez, acredito muito mais nos papéis e nas responsabilidades de cada um dentro dos diversos contextos estabelecidos na complexidade de uma vida humana. Por que estou dizendo isso? Ah, sim, porque o meu contexto atualmente é bem diferente do que era uns bons meses atrás: entre os muitos que sou, me tornei pai, e não há nada mais importante na minha vida nesse momento.

Daí se explica a escolha do título e da epígrafe que encabeçam este texto: encarar um novo desafio era preciso, mudar era preciso, porque sem isso não seria possível progredir como pessoa (e como profissional, uma vez que os dois não são realmente indissociáveis). Não pretendo falar aqui sobre as maravilhas de ser pai. Antes de sê-lo, as ouvi inúmeras vezes e acreditei nelas, mas, depois, passei a vivê-las de fato e me juntei ao coro dos que dizem que é uma experiência inefável (há quanto tempo não usava esse termo!).

Quero saber o resto da história.
Quero ir direto para o final.

Os motivos da escolha

Chegando o fim da licença maternidade, bateu forte aquela preocupação: como ficaria o Otto, com pai e mãe trabalhando em tempo integral? Sendo eu e Marina “estrangeiros” sem família em São Paulo, avós ou tios não eram opção. Então, elencamos nossas possibilidades: uma creche ou uma cuidadora, ambas com suas implicações.

Em geral, tentamos ser pais desencanados e, por mais que essa primeira viagem traga várias dúvidas e receios naturais, optamos por fugir à superproteção. Porém, muita leitura e um bom número de pediatras nos trouxeram a informação que, antes de completar o primeiro ano de vida, é muito comum que as crianças das creches (pelo contato constante com um maior número de pessoas em ambientes fechados) estejam mais suscetíveis a vírus e bactérias. Some-se a isso o fato de que, por uma série de aspectos, gostaríamos de colocá-lo em uma creche pública, que não teria como oferecer o leite materno ao pequeno. Como a OMS recomenda seis meses de aleitamento exclusivo (exceto para os casos em que essa possibilidade realmente não existe), este também tornou-se um fator decisivo. Nosso objetivo é amamentá-lo pelo menos durante o primeiro ano de vida (o que está fortemente relacionado ao desenvolvimento imunológico, entre outros milhares de benefícios), mesmo após a introdução de alimentos sólidos.

Restava a segunda opção: uma cuidadora. Com ela, além de manter uma distância maior dos vírus e das bactérias de plantão, teríamos a possibilidade de manter o aleitamento materno, já que Marina trabalha perto de casa e pode vir para o almoço quase todos os dias. Alternativamente, a cuidadora poderia levá-lo até o trabalho dela ou dar o leite periodicamente retirado e armazenado para esse fim.

Mas aí vieram as implicações: quem seria essa pessoa? Que tipo de qualificações ela deveria ter? Discutimos um certo número de pré-requisitos possíveis para uma babá e descartamos a necessidade de ser uma (cara e) especializada cuidadora de bebês. Precisava ser de confiança, ter carinho, paciência (isto é, gostar de crianças!) e, preferencialmente, algumas referências que atestassem essas características. Já tínhamos uma forte indicação, que era a mãe de uma colega de trabalho da Marina (o que praticamente preenchia o primeiro pré-requisito). Ligamos para a família em que ela trabalhara anteriormente e, entre outras coisas, ouvimos: “De todas as babás que entrevistei, ela foi a única que demonstrou interesse genuíno pela minha filha acima de todas as outras questões, inclusive financeiras. Ela fez um ótimo trabalho.”. Depois disso, ligamos para mais uma ou duas pessoas, mas já quase convictos de que tínhamos a candidata certa.

Não, não estava tudo resolvido. Depois de tantas análises, ainda restava um dilema que, frequentemente, salta ao coração das famílias: iríamos pagar para alguém fazer o trabalho que mais gostaríamos de fazer. Esta é a lógica do sistema: somos contratados por uma empresa ou pessoa que tem mais recursos financeiros do que nós (que somos bastante privilegiados, diga-se de passagem) e ocupamos postos de trabalho que nos permitem contratar outras pessoas para determinados tipos de serviços… (respira!) para que possamos nos manter nesses postos (ou ser promovidos) e ter um “bom” padrão de vida. Ora, mas quando é que esse padrão se tornou mais importante do que ver o meu filho se desenvolver nessa fase tão mágica? – perguntei a mim mesmo.

Eventualmente, as pessoas se propõem um “sabático”, coisa que eu nunca fiz. Então, decidi lançar mão de algumas economias e empreender um projeto ousado: tirar uma espécie de licença paternidade de seis meses para ficar mais perto do meu filho até que ele complete um ano de vida. Marina imediatamente concordou.

Existe um detalhe: embora eu seja de fato um privilegiado por poder emplacar um projeto como esse, reconheço plenamente a importância do trabalho, e foi por causa dele que cheguei até aqui. Isso sem contar que gosto muito de trabalhar com aprendizagem, o que exige uma atualização constante. Assim, para me manter ligado, busquei um ponto de equilíbrio: de segunda a quarta ficar com o Otto, quinta e sexta trabalhar como freelancer, estudar alguma coisa, enfim… manter o contato com esse universo de alguma maneira.

Levei a decisão para o time na 42formas. De coração aberto, eu estava disposto a abrir mão dela, se necessário, porque não queria atrapalhar o andamento das coisas, nem ser injusto com os meus colegas que trabalham tanto, todos os dias úteis da semana (e muitas vezes além). No primeiro momento, confesso que fiquei surpreso não com o acolhimento que recebi pela escolha de vida, mas pela posição unânime do Felipe e da Isabella em dizer que seguiríamos juntos como empresa. E foi ali que eu entendi na plenitude o que significa uma cultura forte, um DNA. E o quanto sou feliz por ter participado dessa construção.

Para finalizar


O objetivo inicial aqui era explicar aos clientes, fornecedores, enfim… parceiros e simpatizantes da 42formas e da nossa filosofia que, há cerca de um mês, quando Marina voltou ao trabalho, iniciamos um processo de transição para que, a partir de maio, eu possa ficar três dias da semana inteiramente por conta do nosso filhote e dois dedicados ao trabalho. Para mim, no final das contas, escrever esse texto acabou se tornando algo maior, uma espécie de síntese da minha compreensão a respeito do que acreditamos como o valor de uma empresa para a sociedade.

Esse não é apenas um jeito de dizer para o “mercado” que nós verdadeiramente apoiamos o que é mais importante para cada um, a qualidade de vida, o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional, etc. – mas de mostrar, na prática, que vale a pena pelo menos tentar fazer diferente. Disse um sábio que as palavras ensinam, mas o exemplo arrasta e, por mais que isso pareça o maior clichê do universo – assim como ser pai – nada é mais adequado para uma empresa cujo maior desejo é promover a aprendizagem, não é mesmo?

 

Ah, ficou aquela pulguinha sobre por que coloquei “mercado” entre aspas? Provavelmente, ainda escreverei sobre isso, mas, se quiser, podemos conversar a respeito, travar um debate, trocar ideias… Será um prazer, é só me dar um toque! 🙂