As três dicas da música que me ajudam a ser um profissional melhor

Adoro quando as conexões improváveis acontecem e rendem alguns aprendizados. Aconteceu comigo assistindo a esse episódio do “How to Musician”, apresentado pelo guitarrista Cory Wong. O tema é como ser um músico de apoio.

Você está sendo chamado para dar vida à visão de alguém. É muito legal, mas traz laços com ego e humildade”. Ou seja, embora a pessoa que te contratou esteja reconhecendo a sua experiência e habilidade, você está servindo ao propósito dela e para colocar algo maior de pé. É necessário entender quais são as regras escritas e não escritas para isso acontecer. Veja abaixo.

Conectei demais com o que aprendo tocando bateria e também com o que eu e o Diego Mancini falamos no “Improviso para não músicos”. Nesse webinar, conectamos os desafios do mundo complexo que vivemos com a música, especialmente o bebop, um estilo que significou para o jazz o que o século XXI significa para nós: uma quebra do que era praticado e visto até então.

Esse pacote de experiências e conexões me mostrou três lições que eu queria compartilhar com vocês.

1) Entender o seu papel

Via de regra, o papel do baterista é ser “o motorista do ônibus”, ou seja, dar o ritmo para o resto da banda. Porém, estilos e pessoas diferentes pedem abordagens diferentes. Na minha prática de jazz, há espaço para a liderança situacional e a alternância de solistas e líderes, mesmo sabendo que há o Luciano Vieira, professor e baixista, exercendo o papel de líder de facto. Porém, ele dá o suporte para as outras pessoas liderarem em seus momentos de solo e dá orientações para o propósito maior, que é a execução da música.

Por outro lado, nos idos de 2004, bem antes de me mudar pra São Paulo e ou sequer pensar em tocar jazz, fiz alguns shows e ensaios com  um artista que me pedia para tocar as músicas tal qual ele havia gravado, nota por nota. No começo foi muito estranho, até então minha experiência com pop e rock era mais solta. Mas o motivo de ter sido chamado era a minha capacidade de fazer a banda “andar”. Entender e respeitar o que ele queria era a regra e o meu papel. E aprendi a ser mais disciplinado na minha execução.

Tal qual na música, dentro do contexto profissional, é super importante entender o seu papel. Saber quais são as regras escritas e não escritas e, principalmente, entender que é um jogo infinito. Nada está escrito na pedra e revisitar acordos é uma prática recorrente.

2) O poder das habilidades socioemocionais

No vídeo, Cory Wong também traz bons argumentos sobre a conduta profissional no geral. Em qualquer ambiente de trabalho, as habilidades socioemocionais tem o mesmo peso das habilidades técnicas. Ou “as 23 horas fora do palco são tão importantes feito a hora em cima dele“. Para Cory, duas habilidades se destacam. Uma é a comunicação, fundamental para entender as diferentes formas que as pessoas lideram e fazem observações: ora mais conceituais, ora de uma maneira mais específica e técnica.

A outra é a criatividade, especialmente entender que as limitações impostas são excelentes oportunidades para exercitá-la. Para ele, a restrição nutre a criatividade e isso é uma estrutura, não uma jaula. É possível achar sua voz em diferentes contextos, especialmente quando não são aqueles determinados por nós.

Em um exercício simples, transponha esses dois exemplos para o seu dia a dia: quantas vezes um projeto não saiu como planejado pela falta de comunicação? Não ter medo de perguntar e estressar as possibilidades logo de cara é uma das formas de garantir que os esforços estão indo para a mesma direção.

E quantas vezes você sentiu-se bem resolvendo problemas e criando novas possibilidades utilizando recursos limitados?

3) Exposição e prática

Finalmente, tudo o que falamos tem a ver com a exposição e a prática. Só conseguimos repertório, solucionar problemas e abordar novos desafios quando estamos expostos, mostrando o nosso trabalho, aprendendo e trocando experiências com outras pessoas. Uma banda toca melhor a cada vez que ela toca e interage.

No nosso trabalho, a coisa funciona igual. Nosso trabalho, suas metas e entregas podem ser melhores ao somar as pessoas envolvidas, com suas experiências, vivências, pontos de vida e histórias de vida.

A cada vez que nos expomos ao novo, estamos mais preparados para projetos diferentes e desafiadores. Minhas novas experiências na música são mais fáceis porque já conheci algumas situações e toquei com uma quantidade legal de pessoas.

Essa analogia se aplica ao trabalho. Hoje lido com projetos de aprendizagem para empresas dos mais variados portes e segmentos, mas já trabalhei em agências de comunicação digital também atendendo a todo tipo de cliente e fiz projetos de educação no terceiro setor e na educação profissional. Esse “empilhamento de habilidades” e experiências acaba nos fazendo mais preparado para as situações.

Aprendizagem Ágil no SXSW

Em setembro de 2020, começamos a implantação do Núcleo de Aprendizagem Ágil na Concert Technologies. A empresa de tecnologia sediada em Belo Horizonte, optou por adotar o núcleo como seu projeto de aprendizagem corporativa, dando autonomia aos seus empregados e promovendo a cultura de aprendizagem na organização.

Embora recente, a experiência tem sido tão rica que arriscamos inscrevê-la no Panel Picker, a plataforma de votação de conteúdos do SXSW EDU. Nossa proposta com o painel “Reboot Corporate Education by using Agile Learning” é contar um pouco da nossa metodologia, compartilhar erros, acertos e correções de rota dentro do projeto da Concert e dar insumos para as organizações que querem adotar esse modelo de aprendizagem. Votando, você nos ajuda a levar a ideia para a programação final do festival!

Para isso:
– Clique no link da proposta;
– Crie uma conta (e-mail e senha);
– No link, clique em “VOTE UP”;
– Se possível, deixe um comentário em inglês sobre o tema!

A data limite é sexta-feira, 20/11.

Contamos um pouco mais sobre a ideia no vídeo abaixo:

Stonehenge - Photo by Inja Pavlić on Unsplash
Stonehenge - Photo by Inja Pavlić on Unsplash

Os Stonehenges de todo dia

Sabe quem descobriu que o Stonehenge, o monumento que ilustra esse texto, um dia foi um círculo perfeito? Um dos jardineiros do monumento.

Talvez você conheça essa história, ela é velha. Mas descobri isso ontem, acompanhando a lista que criei no twitter para acompanhar pessoas que falam sobre treinamento, desenvolvimento e aprendizagem. Alguém da lista tuitou sobre esse post de 2014 escrito pela “Dangerous Meredith”, que fala dessa descoberta sob a perspectiva da comunicação no ambiente de trabalho. Tema manjado? Talvez, mas super importante.

Tim Daw, o jardineiro, percebeu isso quando uma mangueira de irrigação ficou curta e não conseguiu irrigar uma das partes quebradas do monumento, fazendo com que marcas marrons aparecessem e completassem o círculo. Para ele foi um daqueles momentos “eureka”. Depois que comunicou a descoberta, aí vieram os arqueólogos e pesquisadores para confirmar a hipótese com seus estudos e drones. “Eu continuo impressionado e muito feliz, pois simplesmente olhar pra algo que milhares de pessoas olham, pode revelar segredos que máquinas sofisticadas não conseguem”, disse Daw na época.

É muito legal pensar nesse caso, porque vemos discussões extensas sobre “criação de cultura”, “comunicação clara”, “transparência” nos ambientes de trabalho e raramente vemos isso na prática. O caso do Stonehenge é a prova contrária. É um caso do que a autora define como “cair numa piscina de conhecimento e permitir que acidentes ‘felizes’ aconteçam”.

Essa piscina de conhecimento é a síntese desses quase dois meses de rodagem do Núcleo de Aprendizagem Ágil na Concert. E é o que acontece nas edições da Aprendizagem Ágil promovida pelo ALC São Paulo. Todo mundo tem voz e é ouvido, independente de onde esteja no organograma. E isso permite que os acidentes felizes aconteçam.

Não é fácil criar esses espaços. Como toda cultura, a da aprendizagem precisa quebrar barreiras na organização para que ela cresça e se estabeleça. Depende do fornecedor, claro, provendo ferramentas e conhecimento. Depende das forças internas da organização pra construir essa cultura de escuta e acolhimento: principalmente o envolvimento da liderança para validar e estimular o programa, entender que aprender é trabalhar e trabalhar é aprender e abrir espaços nas agendas para a aprendizagem.

Esse caldeirão de coisas é que acaba permitindo pensamentos laterais, conexões improváveis e crescimento coletivo. Na Concert, aos poucos tem funcionado.

Mas imagine quantos pequenos mistérios do Stonehenge não estão para serem resolvidos nas organizações?

A subversão da aprendizagem e as lições (nem tão) escondidas dos músicos de jazz

Há um tempo, eu e o Diego Mancini criamos o webinar “Improviso para não músicos”, onde falamos sobre a mentalidade dos músicos de jazz para lidar com o erro, o improviso, a liderança situacional, ambientes complexos. Usamos o bebop como uma analogia para o século XXI. Se o estilo foi uma ruptura com o que era o jazz até então e mostrou novos caminhos para os músicos, esse século tem feito o mesmo para a sociedade. Inclusive, o link acima é o trecho que falamos disso na primeira vez que rodamos o webinar.

Outro dia, rodando os meus links e anotações, lembrei desse texto do MIT Sloan Review, “Learning for a Living“, cuja linha fina é precisa: “aprender no trabalho é trabalhar e a gente precisa abrir espaço pra isso”.

O autor, Gianpiero Petriglieri, traz um longo argumento sobre como as organizações devem valorizar a aprendizagem no trabalho, abrindo espaço para que a aprendizagem transformativa coexista com a aprendizagem incremental. Segundo ele, “o aprendizado incremental nos faz caber no molde. Mas a aprendizagem transformadora nos torna desajustados. Ele convida à subversão responsável. Isso requer coragem”. Tomei a liberdade de traduzir um quadro que está na matéria:

Mostrei a matéria pro Diego e ele me pergunta: “Você conseguiu ver que a coluna da aprendizagem transformativa são praticamente as definições do bebop e dos processos do jazz modal?

De repente, a luz. Não tinha percebido esse ponto que o Diego havia levantado e está super correto. Eu e ele falamos muito sobre Miles Davis e sua obra prima, o “Kind of Blue”, em nosso webinar como um exemplo de inovação e liderança. E é um super exemplo de playground também. Durante a gravação do disco, Davis deu à banda apenas esboços de escalas e linhas melódicas para improvisar. Uma vez que os músicos estavam reunidos, Davis deu breves instruções para cada peça e então começou a gravar o sexteto em estúdio.

Freqüentemente, os playgrounds fornecem um quadro claro para exploração, mas o deixam amplo o suficiente para que não haja uma única maneira de preenchê-lo.

Falamos sobre muitas coisas em nosso webinar, mas outra lição importante não estava sendo dita: os músicos de maneira geral, especialmente os de jazz, navegam melhor no mundo complexo e lidam naturalmente com erros e improviso porque sabem alternar entre as duas formas de aprendizagem: a incremental e a transformativa. Essas pessoas sabem melhorar a prática e experimentar novas formas de interpretação, sabem aproximar-se do ideal ao mesmo tempo que expandem as fronteiras.

Uma vez que começamos a dominar as duas maneiras de trabalhar com a experiência – prática deliberada e engajamento reflexivo – começamos a ter menos vergonha e mais coragem.

É outra óbvia conexão com aprendizagem e especialmente com a aprendizagem ágil. Devemos trazer isso pras nossas vidas também. As pessoas envolvidas com música já entenderam que não precisam de espaços e práticas formais de aprendizagem. Eles fazem de cada espaço, um espaço – e um momento – de aprendizagem.

Núcleo de Aprendizagem Ágil Concert

Hoje, 03/09, fizemos a primeira reunião do Núcleo de Aprendizagem Ágil da Concert Technologies. A empresa de tecnologia, sediada em Belo Horizonte-MG, tem mais de 120 funcionários espalhados pelo Brasil, atuando em projetos no setor elétrico, utilities e aeroespacial.

Junto com o ALC São Paulo – parceiro no desenvolvimento do produto – apresentamos os valores, a metodologia e as ferramentas que serão utilizadas na rodagem do núcleo para um primeiro grupo, formado por 20 pessoas das mais diversas áreas da empresa.

A cada semana, 20 novas pessoas se juntarão ao grupo existente. Durante as 12 primeiras semanas do Núcleo, além das ofertas e pedidos, os participantes irão aprender mais sobre cultura intencional, ferramentas ágeis e técnicas de facilitação.

Além de dar autonomia no processo de aprendizagem e criar um ambiente que proporcione a troca de experiências, o Núcleo de Aprendizagem Ágil vai ajudar a Concert a mapear competências e habilidades que estão em alta na organização, além daquelas que precisam ser desenvolvidas.

”Curiosidade” foi a tônica na abertura do primeiro ciclo do Núcleo de Aprendizagem Ágil Concert.

 

Autodireção: na Aprendizagem Ágil, os integrantes do Núcleo constróem a própria agenda.

 

Autodireção: na Aprendizagem Ágil, os integrantes do Núcleo constróem a própria agenda.

 

Durante o evento, os participantes foram convidados a “brincar” como parte do processo de aprendizagem.

Photo by Photo Boards on Unsplash
Photo by Photo Boards on Unsplash

Complexo é diferente de complicado

O “novo normal” está exigindo uma mudança de mentalidade, onde precisamos sair do “complicado” para o “complexo”. Essa é a principal lição do artigo escrito pela Sue Bingham para a Harvard Business Review para ajudar as pessoas que trabalham com recursos humanos a navegar nos tempos incertos,

Muitas vezes usamos essas duas palavras como sinônimos e enxergarmos questões complexas como complicadas, mas elas são bem diferentes. A explicação do prof. Rick Nason é clara:

Uma questão complicada é aquela em que “os componentes podem ser separados e tratados de uma forma sistemática e lógica e que depende de um conjunto de regras estáticas ou algoritmos.” Pode ser difícil de ver, mas coisas complicadas tem uma ordem fixa e que permite você lidar com isso de maneira repetitiva. 

Por outro lado, uma questão complexa é aquela em que você não consegue controlar as peças com firmeza e não há regras, algoritmos ou leis naturais. “Coisas que são complexas não têm tal grau de ordem, controle ou previsibilidade”, diz Nason. Uma coisa complexa é muito mais desafiadora – e diferente – do que a soma de suas partes, porque suas partes interagem de maneiras imprevisíveis.

Fazer um carro elétrico é complicado. Gerenciar pessoas ou saber a reação do mercado a um novo produto é complexo. E muitas vezes, tentamos resolver um problema complexo com a abordagem complicada: com regras, procedimentos e mais amarras. Pode não dar certo.

Problemas complicados e problemas complexos exigem habilidades, abordagens e gerenciamentos completamente diferentes e tudo bem.

Além de promover essa mudança de mentalidade, Sue Bingham defende outros dois pontos para os tempos incertos: criar uma cultura de confiança e reforçar os valores fundamentais da (e na) organização. Tudo tem muito em comum com o que falamos na premissa do Núcleo de Aprendizagem Ágil e no nosso webinar “Improviso para Não Músicos“.

Para navegar no mundo complexo e resolver os problemas complexos, precisamos entender que não existe uma abordagem única. Os músicos de jazz navegam no mundo do bebop, a forma mais “complexa” do estilo, porque entendem o conjunto mínimo de regras e valores que norteiam aquilo e confiam nos músicos que estão dividindo as sessões. Além disso, eles têm a ideia de que o estudo e a prática contínuas são fundamentais para entender o contexto e explorar as múltiplas possibilidades.

A mesma coisa precisa acontecer nas organizações. Precisamos delimitar o conjunto mínimo de regras e valores da organização para maximizar a autonomia das pessoas. Na aprendizagem, significa incorporar e respeitar os desejos e experiência delas ao processo e abraçar as múltiplas potencialidades, pontos de vista e habilidades como oportunidades de melhoria e crescimento do negócio.

 

Saber seguir é tão importante feito saber liderar

Já que estamos falando bastante sobre as lições da música para o nosso dia a dia, acho que aqui temos mais uma: não devemos fazer um culto exagerado à liderança. Saber seguir é tão importante feito saber liderar. Mais do que isso, precisamos saber transitar entre os papéis.

Partindo do começo, penso que esse culto é baseado no estereótipo de que líderes costumam ser pessoas inspiradoras, que estimulam o desenvolvimento da força de trabalho da organização e, muitas vezes, são os únicos responsáveis pelo sucesso e resultado dessas mesmas organizações. E se você não é um líder, o que você vai ser? Um seguidor. O estereótipo de alguém sem ambição ou que não tem aquele “a mais” para ser a pessoa que dita os caminhos.

Eu acho esses dois estereótipos errados. E vou usar essa versão de “Cantaloupe Island”, de Herbie Hancock, para explicar.

Essa é a música de abertura do DVD “One Night with Blue Note”, que registra um show feito em 22 de fevereiro de 1985 para celebrar o relançamento do Blue Note, selo musical especialista em jazz. Todos os músicos que aparecem nesse palco são consagrados. Todos eles, sem exceção. Praticamente um “Jogo das Estrelas” do jazz.

Nessa versão de Cantaloupe Island, temos solos do trompetista Freddie Hubbard, do saxofonista Joe Henderson e do próprio Herbie Hancock no piano, com Ron Carter no contrabaixo e Tony Williams na bateria segurando a banda toda. Mas seria uma execução ruim. Além de serem músicos super treinados, existe uma outra habilidade que essas pessoas têm de sobra: a escuta.

Saber escutar te ajuda a desenvolver a consciência situacional, e ela é super importante no local de trabalho, seja um palco ou um escritório. Os bons músicos de jazz souberam desenvolvê-la porque alternam com muita facilidade entre o papel de líder, o solista, ou de seguidor, acompanhando o solista.

Qual é o resultado disso? Senso de pertencimento no grupo, o que significa boa música. Ou um bom projeto. Ao alternar papéis, os músicos sabem como desempenhá-los melhor. Se você está solando, você está liderando, dando a intenção e a direção, porém atento à estrutura da música, ao que os outros músicos estão fazendo e que podem servir de inspiração para o seu solo. Quando você está acompanhando, você está garantindo o espaço para o solista ficar confortável para expressar suas ideias, ao mesmo tempo que você pode dar suporte caso alguma coisa não saia como esperado. Sem julgamentos, sem pressão. Somente com escuta.

Existem evidências científicas de que a inteligência coletiva de um grupo não é medida pela soma da inteligência individual de seus membros, mas sim pela empatia, escuta ativa, pela troca constante de liderança e pela quantidade de mulheres na organização.

A aprendizagem ágil pode ajudar em parte da criação de ambientes que promovam essa mentalidade: núcleos com discussões mais diversas, troca de experiências, pertencimento e liderança situacional. Mas é importante também recompensar as pessoas que ajudam as outras a terem sucesso, ao invés de celebrarmos somente as realizações individuais.

Repertório funciona pros músicos e pode funcionar pra gente também

Sempre gostei de entender diferentes processos de construção das coisas. Mais do que o produto final, fico interessado na criação e nos desafios para se chegar até ali. E dentro dos meus interesses, fico de olho nesse processo dentro da música, especialmente agora que estamos desenhando a segunda edição do webinar “Navegando no mundo complexo: improviso para não músicos“.

Por isso, achei legal comentar essa iniciativa do Drumeo, um dos canais sobre bateria mais populares do Youtube, de colocar os bateristas convidados para tocarem uma música depois de, em tese, ouví-la uma única vez. Aqui embaixo coloquei o vídeo do Larnell Lewis, baterista do Snarky Puppy, mas compartilho também os links do Rashid Williams (John Legend) e Gil Sharone (independente).

(Se você acompanha nosso blog há mais tempo, vai se lembrar do Larnell Lewis. Falamos dele nesse post sobre colaboração.)

Sobre o vídeo, vamos tirar da equação o fato do título em si ser um caça-cliques. Todos os músicos escutam a canção mais de uma vez, mas tomam rumos diferentes para memorizar as partes. E a audição e esses rumos trazem aprendizados interessantes para o nosso dia a dia.

O primeiro ponto é a escuta ativa durante a primeira vez que a música é tocada. Todos os três músicos enfatizam essa parte, porque ela permite entender o contexto e ajuda a responder algumas perguntas:  qual é o estilo da música? O que os outros músicos e instrumentos estão fazendo? Qual é o meu papel na canção e o que posso fazer para melhorá-la? Se pensarmos, são perguntas que aparecem em uma reunião de briefing para um projeto de aprendizagem, por exemplo.

Ter a consciência situacional te permite pensar na abordagem para resolver o problema. Os músicos fazem um mapa da música, seja mental ou no papel, e buscam soluções no repertório construído por cada um. Quais partes se repetem, quais partes são únicas? Será que eles já tocaram ou ouviram algo parecido antes e que seja possível incorporar naquela execução? Quais são as regras fundamentais daquele estilo de música e quais delas podem ser quebradas?

O terceiro passo é fazer uma primeira execução da música, no melhor espírito ágil. Eles testam as ideias, veem o que funcionou e o que pode ser melhorado para uma próxima vez. Finalmente, fazem o ajuste fino para o que seria a “versão final”: quais detalhes podem ser realçados, como aquela experiência pode ser ainda melhor.

Tudo isso é baseado no repertório construído com muita prática. Nesses três exemplos, tudo fica mais fácil porque Larnell, Rashid e Gil estão expostos à música o tempo inteiro, seja estudando o instrumento, ouvindo música e gravando sozinhos ou com outros músicos. Ter essa mentalidade de crescimento e buscar mais referências e experiências facilitou o trabalho dessas pessoas no dia a dia.

Certamente pode facilitar a nossa também.

Clark Tibbs on unsplash
Clark Tibbs on unsplash

A aprendizagem ágil nas organizações

Vou abrir esse texto com duas verdades:

1) Trabalhar significa também aprender habilidades que irão te ajudar a executar sua função e desenvolver sua carreira;
2) Esse aprendizado não é feito da melhor maneira há muito tempo.

Por mais que “engajamento” e “fora da caixa” sejam pedidos comuns que ouvimos em reuniões de briefing, o fato é que é complicado achar projetos de aprendizagem corporativa que realmente cumpram esses objetivos. Na maioria das vezes, as pessoas fazem por obrigação, não por necessidade. Já abordamos esse segundo ponto e suas razões muitas vezes e sob diversos olhares: Há um circulo vicioso no treinamento e aprendizagem, existe uma dissonância sobre a função da tecnologia, queremos resolver com treinamento as coisas que não precisam ser resolvidas com treinamento. E existe uma ironia nisso tudo: segundo essa pesquisa de 2019 feita pela Randstad, dois terços das pessoas buscam oportunidades de desenvolvimento independentemente da organização e há um senso de valorização das organizações que apoiam esse desejo de desenvolvimento.

Por mais que as organizações se desdobrem para oferecer conteúdos, muitas vezes a aprendizagem que realmente importa acontece de maneira informal: um bate-papo entre colegas, um pedido de ajuda, uma pesquisa na internet. Por isso, para um novo cenário, são necessárias novas ferramentas, habilidades e papéis.

O papel da aprendizagem ágil

Em seu último texto, o Marcos Arthur falou com a habilidade que lhe é peculiar sobre a aprendizagem no futuro. A leitura é super recomendada, porque fala também dos pilares da aprendizagem ágil: Autodireção, Cultura Intencional e Ferramentas de Gerenciamento Ágil. Esses pilares compõem o que acreditamos ser um projeto de aprendizagem moderno.

A aprendizagem ágil nas organizações trabalha sobre os mesmos pilares. Dá autonomia para que as pessoas escolham o melhor caminho para aprenderem as habilidades necessárias para o dia a dia: seja um caminho formal ou informal, seguindo suas paixões e interesses. Além disso, cria-se uma cultura intencional, porque essas pessoas estão sendo ouvidas e criam um ambiente mais comunicativo e de confiança, baseado nos pontos fortes e fracos de cada um. As ferramentas ágeis dão suporte para o processo, com claridade do propósito e fácil integração de novos elementos.

Essa nova abordagem exige uma mudança de posicionamento do RH, T&D e a própria gestão das outras áreas. As duas primeiras vão ter uma função mais consultiva, oferecendo também orientação e curadoria para as pessoas. Os demais gestores precisam identificar e estimular as oportunidades de aprendizagem dentro dos seus times. É uma mudança de cultura e isso exige tempo, esforço e vontade. Mas é a saída para uma aprendizagem mais eficiente e com mais sentido.

Gostaríamos de saber quais são as dificuldades nos projetos de aprendizagem na sua organização e quais as saídas você enxerga para os processos.

Conta pra gente!

Silhuetas de pessoas caminhando em espaço azul futurista.
Photo by Robynne Hu on Unsplash

Como será a aprendizagem no futuro? (Parte 1 de N)

Nos últimos tempos, ouvimos com frequência alguém falar sobre o futuro do trabalho ou sobre as competências necessárias para manter uma ocupação nos próximos anos, isto é, as habilidades para o futuro (1), já que os empregos como os conhecemos tendem a desaparecer. Nós mesmos vimos tratando desses temas de forma recorrente aqui na 42formas, seja por meio de vídeos, posts, papos com cerveja ou oficinas/workshops.

Partindo dessa inquietação, passei a me perguntar com mais frequência como será a aprendizagem no futuro e intensifiquei meus estudos a respeito do tema, procurando alternativas aos modelos tradicionais e à visão da tecnologia como panaceia da educação. Iniciei uma série de diálogos, encontros, cafés, leituras e participações em eventos de toda sorte na busca por uma luz e comecei o ano cedo, bem antes do Carnaval.

Uma das paradas que fiz nessa jornada (2) foi uma imersão em aprendizagem ágil, promovida pelo ALC São Paulo na Fazenda Furquilha, um lugar incrível que fica nos arredores de Monte Alegre do Sul (SP) e próximo de Amparo (também SP). A experiência foi tão impactante que logo em seguida entrei para a Organização e passei a fazer parte da rede internacional (ALC Network).

GIF com participantes da Imersão na Fazenda Furquilha em frente a uma árvore ao final do evento.

Imersão em aprendizagem ágil na Fazenda Furquilha

O que é um ALC

Um ALC – Agile Learning Center (Centro de Aprendizagem Ágil) – é uma organização cujo propósito reside em restaurar a alegria de aprender por meio de três pilares:

  • Autodireção – humanos aprendem naturalmente e, ao seguir suas paixões, o engajamento é imediato e profundo, proporcionando processos de aprendizagem mais eficientes, com resultados mais eficazes. Assim, é possível aprender em semanas o que levaria anos.
  • Cultura Intencional – as pessoas sentem que são ouvidas e criam real senso de pertencimento, fazem real diferença; como criaturas sociais, prosperam em um ambiente que constrói confiança, aprimora habilidades de comunicação e as estimula a trazerem a melhor versão de si.
  • Ferramentas de Gerenciamento Ágil – o uso de ferramentas práticas e concretas torna possível o atingimento desses ideais de forma real e confiável. Essas ferramentas proporcionam feedback visível, autogerenciamento efetivo, claridade de propósito e fácil integração de novos elementos conforme a necessidade.

O primeiro ALC foi criado em 2013, na cidade de Nova Iorque e, hoje, a proposta já se espalha por mais de 50 iniciativas em todo o mundo.

 

O ALC São Paulo

Pioneira no Brasil, a organização paulistana foi fundada em 2018 e já promoveu vários eventos pelo Brasil que vão desde bate-papos on-line até workshops e imersões para disseminar a cultura da aprendizagem ágil e plantar a semente da autodireção, valorizando o potencial humano de crescimento e desenvolvimento independente da educação formal.

 

O que isso tem a ver com a aprendizagem no futuro

Imagine-se sem as amarras tradicionais do dia a dia de trabalho, em um ambiente agradável e cercado por pessoas que inspiram real confiança. Cada uma delas é dotada de conhecimentos interessantes diversos e está disposta a compartilhá-los, sem medo de errar. Melhor ainda, elas celebram o erro como parte fundamental do processo de aprendizagem. Captou?

Isso é mais ou menos o que aconteceu durante a imersão. Usando as ferramentas ágeis do ALC, os participantes podiam fazer pedidos e ofertas que alimentavam uma espécie de rede de aprendizagem informal levando em conta não somente as habituais questões intelectuais, mas também afetivas, espirituais e corporais, isto é, respeitando a integralidade humana. Para alguns, ainda muito apegados ao modelo tradicional, isso pode soar estranho, mas a verdade é que não há aprendizado real sem conexões emocionais – se você tem dúvidas a respeito disso, faça o teste que proponho ao final.

Participantes da Imersão em um grande salão montando a agenda de atividades.

Imersão: montagem de agenda

Para falar um pouco sobre tecnologia (aquela panaceia, lembra?): claro que ela foi utilizada. Tínhamos flip charts, canetões, folhas de sulfite, post-its e canetinhas de cores variadas; mas nada de AR ou VR, sequer telões e projetores. Apenas confiança, engajamento e celebração do erro, o que se traduziu em senso de comunidade suportado por outro tipo de recurso: a tecnologia social.

Não estou propondo prescindir de outros tipos de tecnologias. Quando disponíveis, elas podem ser de grande valia para a aprendizagem, ágil ou não. Apenas vale refletir: quando e quanto estão disponíveis? Quando e quanto são realmente necessárias?

Pensando na aprendizagem no futuro, é fácil imaginar que teremos máquinas capazes de nos transmitir conhecimentos durante o sono – e pode ser que tenhamos. Porém, em um mundo cujos recursos tecnológicos materiais de ponta não estejam disponíveis para todos, o que fazer? E, ainda que estejam, serão capazes de substituir o nosso ser social, as nossas paixões, a nossa naturalidade e a nossa vontade de aprender aquilo que realmente nos interessa?

Neste ponto da jornada, estou convencido de que, no futuro, a aprendizagem será mais ágil e mais conectada, não por meio de fios e aparelhos, mas por meio de pessoas e compartilhamentos. A tecnologia estará lá, é claro, mas apenas servindo à camada anterior, como recursos facilitadores, não como soluções (3). Donde concluo que os elementos para a aprendizagem no futuro já estão no presente há bastante tempo, só falta compreendermos sua essência e resgatar a aprendizagem como um processo natural, social e apaixonante. Obrigado, Isabella Bertelli, Juliana Machado e Suzana Verri, pelo vislumbre.

E você, como enxerga a aprendizagem no futuro?

Num próximo texto, falarei sobre como a autogestão pode influenciar tudo isso.

Notas

(1) Tem sido comum as pessoas falarem de competências ou habilidades “do” futuro para se referirem àquelas que serão necessárias no enfrentamento dos próximos estágios do mundo VUCA (Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo). Nós, da 42formas, preferimos usar “para o” futuro, entendendo que essas habilidades já existem há tempos, ainda que precisem receber atenção especial daqueles que aprendem e daqueles que trabalham pela aprendizagem.

(2) Este texto inaugura uma série de relatos dessa jornada de tempo indeterminado na busca por uma aprendizagem com real significado para as pessoas de hoje e de amanhã.

(3) É frequente o uso da expressão soluções de aprendizagem para referência a recursos tecnológicos que, em tese, resolvem problemas nesse campo. Eu mesmo já a utilizei várias vezes, em diferentes contextos. Depois de muito refletir, cheguei à conclusão que a aprendizagem, em si, é um processo essencialmente humano e, nesse sentido, a tecnologia serviria mais ao propósito do acesso, o que de forma alguma diminui sua importância.

Teste: aprender exige uma conexão emocional?

É comum acreditarmos que a aprendizagem passa exclusivamente pela nossa capacidade de racionalizar processos. Porém, a psicologia cognitiva (Piaget, VygotskI) e a neurociência há muito já falam sobre como a emoção é fundamental no processo de retenção da informação. Por meio deste teste simples, você pode tirar suas próprias conclusões. Vamos lá?

  1. Selecione dois temas, um sobre o qual você tem amplo interesse (seja qual for a razão) e outro sobre o qual você não tem.
  2. Sobre o primeiro tema, tente estudar algo que você não sabe a respeito; sobre o segundo, tente estudar qualquer coisa. Você pode ler textos, assistir a vídeos, ouvir podcasts… Faça como se sentir mais confortável, apenas procure usar o mesmo tipo de recurso para ambos os temas, para não influenciar diferentes sentidos.
  3. Depois de uma semana, tente se recordar o máximo do que leu, viu ou ouviu sobre cada um dos temas. Se quiser, faça anotações, para ter um feedback visual.
  4. Compare as informações e avalie os resultados. Tente identificar por que você se recorda dessa ou daquela informação.

Claro que esse teste é bastante raso e provavelmente não vai levar você a nenhum “eureka” (se levar, ótimo!), mas vai pelo menos trazer uma noção do aprendizado gerado pelo engajamento (fator inevitavelmente emocional) e dar uma ideia do potencial da aprendizagem autodirigida.

Que tal começar agora esse teste de autoconhecimento? Vá em frente e volte para comentar seus resultados com a gente!

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