O blog da 42formas

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Photo by Robynne Hu on Unsplash
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Como será a aprendizagem no futuro (Parte 1 de ?)

Nos últimos tempos, ouvimos com frequência alguém falar sobre o futuro do trabalho ou sobre as competências necessárias para manter uma ocupação nos próximos anos, isto é, as habilidades para o futuro (1), já que os empregos como os conhecemos tendem a desaparecer. Nós mesmos vimos tratando desses temas de forma recorrente aqui na 42formas, seja por meio de vídeos, posts, papos com cerveja ou oficinas/workshops.

Partindo dessa inquietação, passei a me perguntar com mais frequência como será a aprendizagem no futuro e intensifiquei meus estudos a respeito do tema, procurando alternativas aos modelos tradicionais e à visão da tecnologia como panaceia da educação. Iniciei uma série de diálogos, encontros, cafés, leituras e participações em eventos de toda sorte na busca por uma luz e comecei o ano cedo, bem antes do Carnaval.

Uma das paradas que fiz nessa jornada (2) foi uma imersão em aprendizagem ágil, promovida pelo ALC São Paulo na Fazenda Furquilha, um lugar incrível que fica nos arredores de Monte Alegre do Sul (SP) e próximo de Amparo (também SP). A experiência foi tão impactante que logo em seguida entrei para a Organização e passei a fazer parte da rede internacional (ALC Network).

GIF com participantes da Imersão na Fazenda Furquilha em frente a uma árvore ao final do evento.

Imersão em aprendizagem ágil na Fazenda Furquilha

O que é um ALC

Um ALC – Agile Learning Center (Centro de Aprendizagem Ágil) – é uma organização cujo propósito reside em restaurar a alegria de aprender por meio de três pilares:

  • Autodireção – humanos aprendem naturalmente e, ao seguir suas paixões, o engajamento é imediato e profundo, proporcionando processos de aprendizagem mais eficientes, com resultados mais eficazes. Assim, é possível aprender em semanas o que levaria anos.
  • Cultura Intencional – as pessoas sentem que são ouvidas e criam real senso de pertencimento, fazem real diferença; como criaturas sociais, prosperam em um ambiente que constrói confiança, aprimora habilidades de comunicação e as estimula a trazerem a melhor versão de si.
  • Ferramentas de Gerenciamento Ágil – o uso de ferramentas práticas e concretas torna possível o atingimento desses ideais de forma real e confiável. Essas ferramentas proporcionam feedback visível, autogerenciamento efetivo, claridade de propósito e fácil integração de novos elementos conforme a necessidade.

O primeiro ALC foi criado em 2013, na cidade de Nova Iorque e, hoje, a proposta já se espalha por mais de 50 iniciativas em todo o mundo.

 

O ALC São Paulo

Pioneira no Brasil, a organização paulistana foi fundada em 2018 e já promoveu vários eventos pelo Brasil que vão desde bate-papos on-line até workshops e imersões para disseminar a cultura da aprendizagem ágil e plantar a semente da autodireção, valorizando o potencial humano de crescimento e desenvolvimento independente da educação formal.

 

O que isso tem a ver com a aprendizagem no futuro

Imagine-se sem as amarras tradicionais do dia a dia de trabalho, em um ambiente agradável e cercado por pessoas que inspiram real confiança. Cada uma delas é dotada de conhecimentos interessantes diversos e está disposta a compartilhá-los, sem medo de errar. Melhor ainda, elas celebram o erro como parte fundamental do processo de aprendizagem. Captou?

Isso é mais ou menos o que aconteceu durante a imersão. Usando as ferramentas ágeis do ALC, os participantes podiam fazer pedidos e ofertas que alimentavam uma espécie de rede de aprendizagem informal levando em conta não somente as habituais questões intelectuais, mas também afetivas, espirituais e corporais, isto é, respeitando a integralidade humana. Para alguns, ainda muito apegados ao modelo tradicional, isso pode soar estranho, mas a verdade é que não há aprendizado real sem conexões emocionais – se você tem dúvidas a respeito disso, faça o teste que proponho ao final.

Participantes da Imersão em um grande salão montando a agenda de atividades.

Imersão: montagem de agenda

Para falar um pouco sobre tecnologia (aquela panaceia, lembra?): claro que ela foi utilizada. Tínhamos flip charts, canetões, folhas de sulfite, post-its e canetinhas de cores variadas; mas nada de AR ou VR, sequer telões e projetores. Apenas confiança, engajamento e celebração do erro, o que se traduziu em senso de comunidade suportado por outro tipo de recurso: a tecnologia social.

Não estou propondo prescindir de outros tipos de tecnologias. Quando disponíveis, elas podem ser de grande valia para a aprendizagem, ágil ou não. Apenas vale refletir: quando e quanto estão disponíveis? Quando e quanto são realmente necessárias?

Pensando na aprendizagem no futuro, é fácil imaginar que teremos máquinas capazes de nos transmitir conhecimentos durante o sono – e pode ser que tenhamos. Porém, em um mundo cujos recursos tecnológicos materiais de ponta não estejam disponíveis para todos, o que fazer? E, ainda que estejam, serão capazes de substituir o nosso ser social, as nossas paixões, a nossa naturalidade e a nossa vontade de aprender aquilo que realmente nos interessa?

Neste ponto da jornada, estou convencido de que, no futuro, a aprendizagem será mais ágil e mais conectada, não por meio de fios e aparelhos, mas por meio de pessoas e compartilhamentos. A tecnologia estará lá, é claro, mas apenas servindo à camada anterior, como recursos facilitadores, não como soluções (3). Donde concluo que os elementos para a aprendizagem no futuro já estão no presente há bastante tempo, só falta compreendermos sua essência e resgatar a aprendizagem como um processo natural, social e apaixonante. Obrigado, Isabella Bertelli, Juliana Machado e Suzana Verri, pelo vislumbre.

E você, como enxerga a aprendizagem no futuro?

Num próximo texto, falarei sobre como a autogestão pode influenciar tudo isso.

Notas

(1) Tem sido comum as pessoas falarem de competências ou habilidades “do” futuro para se referirem àquelas que serão necessárias no enfrentamento dos próximos estágios do mundo VUCA (Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo). Nós, da 42formas, preferimos usar “para o” futuro, entendendo que essas habilidades já existem há tempos, ainda que precisem receber atenção especial daqueles que aprendem e daqueles que trabalham pela aprendizagem.

(2) Este texto inaugura uma série de relatos dessa jornada de tempo indeterminado na busca por uma aprendizagem com real significado para as pessoas de hoje e de amanhã.

(3) É frequente o uso da expressão soluções de aprendizagem para referência a recursos tecnológicos que, em tese, resolvem problemas nesse campo. Eu mesmo já a utilizei várias vezes, em diferentes contextos. Depois de muito refletir, cheguei à conclusão que a aprendizagem, em si, é um processo essencialmente humano e, nesse sentido, a tecnologia serviria mais ao propósito do acesso, o que de forma alguma diminui sua importância.

Teste: aprender exige uma conexão emocional?

É comum acreditarmos que a aprendizagem passa exclusivamente pela nossa capacidade de racionalizar processos. Porém, a psicologia cognitiva (Piaget, VygotskI) e a neurociência há muito já falam sobre como a emoção é fundamental no processo de retenção da informação. Por meio deste teste simples, você pode tirar suas próprias conclusões. Vamos lá?

  1. Selecione dois temas, um sobre o qual você tem amplo interesse (seja qual for a razão) e outro sobre o qual você não tem.
  2. Sobre o primeiro tema, tente estudar algo que você não sabe a respeito; sobre o segundo, tente estudar qualquer coisa. Você pode ler textos, assistir a vídeos, ouvir podcasts… Faça como se sentir mais confortável, apenas procure usar o mesmo tipo de recurso para ambos os temas, para não influenciar diferentes sentidos.
  3. Depois de uma semana, tente se recordar o máximo do que leu, viu ou ouviu sobre cada um dos temas. Se quiser, faça anotações, para ter um feedback visual.
  4. Compare as informações e avalie os resultados. Tente identificar por que você se recorda dessa ou daquela informação.

Claro que esse teste é bastante raso e provavelmente não vai levar você a nenhum “eureka” (se levar, ótimo!), mas vai pelo menos trazer uma noção do aprendizado gerado pelo engajamento (fator inevitavelmente emocional) e dar uma ideia do potencial da aprendizagem autodirigida.

Que tal começar agora esse teste de autoconhecimento? Vá em frente e volte para comentar seus resultados com a gente!

Você também encontra a 42formas nas redes sociais:

Se preferir, comente por lá! 🙂

QUEBEC, CANADA - 1st SEPTEMBER: Drummer Neil Peart from Canadian progressive rock band Rush recording their album 'Permanent Waves' at Le Studio, Morin Heights, Quebec, Canada in October 1979. (Photo by Fin Costello/Redferns)
QUEBEC, CANADA - 1st SEPTEMBER: Drummer Neil Peart from Canadian progressive rock band Rush recording their album 'Permanent Waves' at Le Studio, Morin Heights, Quebec, Canada in October 1979. (Photo by Fin Costello/Redferns)

Neil Peart sabia o que era aprender pra vida toda

Nota: Escrevi este texto para o meu blog pessoal. Achei que valeria a pena compartilhar aqui também.

Janeiro nos surpreendeu com a notícia da morte do Neil Peart, baterista do Rush, aos 67 anos. Pegou muita gente de surpresa, porque ninguém (ou poucas pessoas) sabia(m) que ele lutava contra um glioblastoma, um agressivo câncer no cérebro.

Peart foi ídolo e mentor de toda uma geração de músicos, em maior e menor escala. Todos nós tentamos tocar “YYZ” em algum momento da vida, mesmo que mal e porcamente. Para o público em geral, Neil Peart era o baterista com o instrumento gigante e o “Tom Sawyer” era a música da abertura de MacGyver. Essa foi a primeira vez que escutei Rush, inclusive.

E na história de vida de Neil Peart, além da força para encarar a morte da primeira filha e da primeira esposa, existe um outro ponto que me chamou atenção: a capacidade de se reinventar também como músico. Ele sabia da importância de aprender durante toda a vida.

Em 1992, Peart foi chamado para acompanhar a Buddy Rich Big Band em um show em homenagem ao lendário baterista de jazz que dava nome ao conjunto. Ele topou, porém se deparou com dois problemas: o pouco tempo de ensaio e a percepção que ele tinha aprendido um arranjo diferente do tocado pelo resto da banda. “Eu cheguei no que seria o primeiro solo de bateria só pra perceber que a banda continuava tocando”, ele escreveu certa vez.

Obviamente, a performance não foi lá essas coisas e mesmo em 1994, em uma gravação em estúdio -são condições mais controladas – Peart achava que estava “imitando” alguém e não tocando propriamente o estilo. Como diz o Duke Ellington, “it don’t mean a thing, if it ain’t got that swing“, ou na minha tradução livre, “não significa nada, se você não tem a levada”. 😉

O fato é que para isso não acontecer de novo, Neil Peart decidiu estudar. Um dos bateristas mais técnicos e precisos do mundo, aclamado dezenas de vezes como o melhor de todos os tempos, decidiu começar de novo. Criar novas regras, ter outras ferramentas. Primeiro com Fredie Grubner, lendário baterista e professor de jazz, e depois com Peter Erskine, outro mestre do jazz-fusion.

Neil Peart e Peter Erskine

Quando eu estacionei em frente à casa do Peter e entrei com as baquetas na mão, tive que rir de mim mesmo. Eu era aquele estudante de 13 anos novamente (…) e é claro que eu deveria me sentir assim. Não há sentido em ter aulas se não for para se render ao professor.

É um longo relato, incrível e de uma relação completamente honesta entre mestre e aprendiz, os dois sendo super capazes no que fazem. Neil Peart pegou os aprendizados do jazz e transpôs para a sua música. Recriou sua técnica, redefiniu seu senso de tempo, ganhou um estilo de tocar mais fluido. É preciso muita humildade pra desconstruir – ou seria reconstruir? – o que foi construído, mas as recompensas costumam valer o esforço.

 

“O que é um mestre se não um estudante-mestre? Existe uma responsabilidade em nós de continuar melhorando” – Neil Peart.

 

Storylearning | Aprendendo no Instagram

Você sabe identificar um bom objetivo de aprendizagem? E o quanto ele é importante tanto para quem ensina quanto para quem aprende?

Foi pensando nisso que a gente escolheu este tema – objetivos de aprendizagem – para o primeiro microlearning publicado nos Stories da 42formas.

A proposta é que você, em aproximadamente três minutos, aprenda a avaliar um objetivo de aprendizagem.

E isso vai ajudar você, que aprende, a escolher um bom curso, uma boa oficina, ou você, que ensina, a construir um objetivo atraente e eficaz para a sua aula.

O conteúdo é totalmente gratuito e a gente fica muito feliz em receber o seu feedback. Acessa lá! Ah, e se gostar, compartilhe, claro.

http://www.instagram.com/42formas

 

Quando o processo de aprendizagem faz sentido

Esse vai ser um post diferente, porque vou trazer uma reflexão baseada em uma experiência pessoal.

Aproveitei o começo de 2019 e o começo de 2020 para mais uma incursão na marcenaria. Em 2018, escrevi algumas linhas sobre a primeira experiência aqui no blog da 42formas. Falei no meu blog sobre a segunda experiência, também no ano passado. Desta feita, a experiência foi sem nenhum tipo de assistência. Usei a oficina do meu tio e umas chapas de ipê e perobas que um dia foram seu piso para fazer uma bandeja e uma tábua.

O resultado foi ok, digo de um 6,5. Tive vários erros e percalços no caminho e um mar de distância entre a expectativa e a realidade, especialmente no projeto da tábua, que foi um tremendo teste de paciência.

No entanto, foi legal ter mais controle sobre o processo, mais familiaridade com as ferramentas e mais recursos e paciência para achar soluções para as coisas. E quero falar mais sobre esse último ponto.

O produto final

Eu cometi dois erros grosseiros, um na bandeja e outro na tábua. O da bandeja foi uma medida e um corte errado na largura. Já a tábua foi uma sucessão de pequenos percalços que resultaram em uma montagem irregular, horas no desengrosso e cortes não planejados. Em uma dessas passagens no desengrosso, uma das bordas se soltou e foi totalmente destruída.  E enquanto corrigia os erros, pensei na pergunta:

Por que sou mais tolerante com meus erros na marcenaria?

Essa pergunta pode ter uma resposta óbvia, algo como “é seu hobby”, mas não acho que é isso. Não ser uma atividade profissional ajuda muito, claro. Mas existe um outro ponto muito importante: na marcenaria, o erro é entendido como parte do processo, quase como um caminho para o produto final e isso te faz seguir em frente. Ele te dá a oportunidade pra rever os passos e testar novas soluções. Não é uma abordagem comum, afinal, na maioria das atividades o erro é geralmente visto como um desvio de padrão, uma perda de tempo.

Não estou dizendo que você ganha tempo errando na marcenaria, mas ele acelera a sua curva de aprendizagem, especialmente para quem está no começo dela. Qualquer momento dentro de uma oficina é uma nova descoberta: trabalhar com madeiras novas ou tentar construir coisas diferentes.

 

Além disso, é um ambiente onde aprendo 70% do tempo fazendo e 20% do tempo trocando com pessoas mais experientes: no meu caso, meus dois tios, um de cada lado da família. Cada um tem uma oficina, o Ângelo em Cunha/SP, o João em Itabirito/MG. São duas abordagens, experiências e tutorias diferentes.

Dentro de uma oficina, você precisa estar ali de corpo e alma, porque um descuido pode significar uma lesão grave. O foco é algo tão complicado nos dias atuais, que ter essa oportunidade também te mostra o valor do tempo e do esforço em cada momento ali dentro.

Pra fechar, seria ótimo se a gente conseguisse transpor esse “carinho” pelo erro e a valorização do processo de aprendizagem para as outras áreas da nossa vida. Isso não acontece por uma série de razões: cobrança, afirmação, não ver sentido na aprendizagem. Ressignificar a forma como vemos esse processo também vai ajudar a ressignificar nosso trabalho, nossas entregas e nosso propósito.

Eu tento fazer isso uma bandeja de cada vez.

O que fazer com as diferentes agendas e culturas nas organizações?

Pelo segundo ano consecutivo, fui Mestre de Cerimônias do Roadsec São Paulo. Se você não conhece o evento, eu te explico: o Roadsec é a maior conferência de tecnologia, hacker e de segurança da informação do continente. São eventos itinerantes no Brasil, com a edição de encerramento do ano em São Paulo. Vários palcos simultâneos, oficinas, atividades e shows bacanas no final.

Eu brinco dizendo que sou “o cara de humanas na conferência de tecnologia”. Entendo mais ou menos o que está sendo dito em parte das palestras e tento aprender o máximo que consigo, não só com os conteúdos, mas com todo o festival. Um evento que é feito por gente apaixonada pelo tema, um envolvimento fora do comum da comunidade, realmente um ambiente de construção coletiva. Espero um dia poder criar um evento para a área de educação e aprendizagem que seja relevante feito o Roadsec.

Esse ano, fiquei responsável pelo palco Gerald Lawson e, dentre os vários conteúdos bacanas apresentados, três me chamaram atenção. Um pela inovação e criatividade e dois por abordarem a questão da cultura e agenda das organizações, em diferentes aspectos.

Sobre inovação e criatividade, fiquei de boca aberta com a palestra do Lucas Lima , engenheiro mecânico de 24 anos e fundador da Infill, uma fábrica de impressoras 3D instalada no Complexo do Alemão. Usando peças achadas em ferros-velhos, arduíno e um software livre, ele consegue montar uma impressora por 700 reais, em uma tecnologia 100% made in favela. Outro objetivo do Lucas é ensinar a tecnologia para crianças e jovens do alemão. É daqueles projetos que enchem os olhos pelo propósito e pela inovação. Além disso, fiquei impressionado com sua facilidade para simplificar as explicações complexas.

Recomendo ler essa matéria e essa outra matéria sobre o trabalho do Lucas.

Sobre a cultura organizacional, achei interessante acompanhar as palestras do Felipe Luz e do André Antunes. O Felipe falou sobre as questões da privacidade e as novas oportunidades geradas para negócios e carreiras. Trabalhando com aprendizagem corporativa, vejo superficialmente como a Lei Geral de Proteção de Dados ainda é um território nebuloso e como somos descuidados com dados que deixamos pra trás. Enquanto pessoas físicas ou jurídicas, de maneira geral, ainda não entendemos como lidar com dados. O André abordou o walk the talk em segurança da informação e como muitas vezes, o que é falado não é praticado, o popular “casa de ferreiro, espeto de pau”.

Conversando com os dois palestrantes antes de subirem ao palco, percebemos como é uma questão de cultura organizacional. Obviamente, lembrei de alguns pontos da palestra do Sunil Mundra, especialmente as dissonâncias entre a área de negócios e as outras áreas da organização. Ou não praticamos o que vendemos ou temos dificuldade em entender as mudanças e tomar ações frente à elas.

Outro grande desafio é encaixar a mudança ou implementação das diversas culturas na agenda das organizações. É meio inocente afirmar isso, mas esquecemos que as empresas são sistemas complexos, com diversos interesses e culturas andando ao mesmo tempo. Da mesma forma que o RH precisa mudar a cultura da aprendizagem e da diversidade, por exemplo, a área de segurança precisa tratar da sua, assim como privacidade ou inovação.

Já adianto que esse é apenas o começo da nossa conversa sobre isso. Em sistemas complexos, não podemos pensar em ações isoladas, dentro de setores ou áreas. Por isso, imagino que a implementação da(s) cultura(s) desejada(s) passe por entender a urgência, envolver todas as áreas da empresa, e buscar apoio e recursos em outras áreas. Apesar das próprias agendas e urgências, RH e Comunicação são duas áreas que precisam ser envolvidas e que podem oferecer soluções e caminhos possíveis. E claro, essas discussões precisam envolver as altas hierarquias das empresas.

Contem pra gente quais são as dificuldades que vocês enxergam na implementação de culturas e mudanças na sua organização. Vamos falar mais sobre isso nos próximos dias.

Photo by Franki Chamaki on Unsplash
Photo by Franki Chamaki on Unsplash

Quem você escolheria para te liderar: pessoas ou a inteligência artificial?

Pra começar, essa pergunta faz sentido? Se lidamos com pessoas todos os dias, seria natural que nós fossemos melhores líderes de nós mesmos, correto? Aparentemente não.

A Oracle e o instituto Future Work fizeram uma pesquisa com mais de 8 mil empregados, profissionais de RH e gestores em dez países, incluindo o Brasil. O resultado mostrou alguns números interessantes, sejam bons ou ruins.

Vamos começar pelas coisas boas. No geral, há um sentimento positivo em relação à adoção da inteligência artificial no trabalho. Isso é um bom sinal, especialmente quando o posicionamento geral é de que a tecnologia irá tomar todos os nossos empregos. 53% das pessoas está empolgada em ter um robô como colega de trabalho. Essas pessoas enxergam a adoção da Inteligência Artificial como um meio para mais tempo livre, oportunidades para aprender novas habilidades e desempenhar um papel mais estratégico nas organizações.

Outro dado interessante: os Millennials estão mais empolgados com a inteligência artificial (31%), seguido da Geração Z (24%), Geração X (22%), e finalmente, os Baby Boomers (14%).

Agora vem o lado ruim e preocupante da adoção da Inteligência Artificial no ambiente de trabalho: ela inspira mais confiança nas pessoas do que outras pessoas, especialmente em casos de chefia. 64% das pessoas acredita mais em um robô do que na chefia humana e 80% acha que a inteligência artificial faz certos tipos de trabalho melhor que os humanos. Um desses trabalhos? Oferecer opiniões sem viés (36% das pessoas deu essa resposta).

Os números destacados me preocupam bastante. Ao que parece, ainda há um desconhecimento sobre a origem da inteligência artificial. Cada linha de código foi feita por pessoas que colocam ali os seus vieses, experiências e visão de mundo. Quando falamos de tecnologia, não existe opinião sem viés e sim opinião com múltiplos vieses. Existem alguns casos bem esquisitos quando não garantimos a diversidade entre os programadores de inteligência artificial, sendo a Tay, da Microsoft, um dos mais impressionantes. A robô tornou-se racista e nazista em apenas um dia. Não estou dizendo que os responsáveis compartilham das opiniões abraçadas pela robô. Eles só não tomaram os cuidados necessários para que isso acontecesse.

Sobre as pessoas preferirem a interação com máquinas ao invés da chefia humana, parte vem do desconhecimento acima, parte de uma questão geracional – as gerações mais novas são mais digitais – e parte vem do estigma do que é chefia. O próprio papel da liderança e suas atribuições têm sido colocados em questão, e por isso é importante o desenvolvimento de novas habilidades e funções. A pesquisa mostra que as pessoas são melhores que o robô na empatia, na orientação de pessoas e na criação de uma cultura organizacional. Se os empregados querem desempenhar papeis mais estratégicos, as pessoas na liderança também precisam pensar dessa forma.

Recomendo a leitura do documento todo, que pode ser acessado aqui. Mostra que a discussão sobre transformação digital e desenvolvimento de habilidades sociais ainda é muito relevante para as organizações. A questão é entender como se preparar para essas mudanças e como promover o desenvolvimento dessas habilidades.

Vamos conversar?

[Evento] Conversando sobre educação: o que escolas e empresas podem aprender juntas?

Uma das coisas que gostamos de fazer na 42formas é achar conexões e relações em mundos que pouco conversam com as áreas de Recursos Humanos e Treinamento e Desenvolvimento: esporte, música, artes e… escolas? Sim, escolas.

Afinal, as escolas e as empresas lidam com desafios similares: formação, habilidades a serem desenvolvidas, papel na sociedade. Por isso, no dia 11 de novembro, vamos realizar o evento “Conversando sobre educação: o que escolas e empresas podem aprender juntas?” com o objetivo de achar caminhos comuns para esses desafios.

O evento traz Pilar Lacerda e Miguel Thompson, dois educadores super renomados, para trocar experiências e trazer a perspectiva do mundo educacional para inspirar o mundo corporativo. Vamos (tentar) abordar vários temas:

  • Como a escola e a sociedade podem trabalhar juntas na formação das pessoas?
  • Como aplicar as práticas educacionais mais inovadoras em nosso dia a dia pessoal e profissional?
  • O que as melhores escolas têm em comum e como as empresas podem aprender com isso?
  • Qual educação buscar para meus filhos hoje?

 

É um evento gratuito, com inscrições limitadas e destinado para todos que têm interesse no tema educação e desenvolvimento de habilidades, independente do nível de conhecimento.

Acesse e se inscreva!

 

What are green skills? Making sense of the green economy | Foto: WorldSkills
What are green skills? Making sense of the green economy | Foto: WorldSkills

Você sabe o que são Green Skills?

O aquecimento global é uma realidade. Sociedade e governos estão cada vez mais atentos à situação e tomando medidas para se adaptar e combater esse cenário: a busca por um estilo de vida mais sustentável, a mudança das matrizes energéticas e a otimização de recursos.

E como fica o trabalho nessa situação? Quais habilidades devemos desenvolver para combater a tragédia da mudança climática e que irão nos manter ativos no mercado de trabalho?

A resposta passa pelas “green skills”, ou “habilidades sustentáveis”. Esse termo foi um dos grandes eixos de discussão da WorldSkills Conference 2019, que aconteceu em 23 e 24 de agosto em Kazan, na Rússia. Este será o primeiro post de uma série que faremos sobre as “green skills”.

Porém, antes de falarmos sobre as habilidades em si, permitam-me explicar o que é essa conferência e o contexto no qual ela está envolvida.

O que é a WorldSkills Conference?

A WorldSkills Conference é parte da WorldSkills Competition, a maior competição de educação profissional do mundo. Mais de 1.300 competidores de 63 países e regiões competem em 56 modalidades profissionais — de TI até soldagem, passando por cuidados sociais, carpintaria, cozinha, jardinagem e computação na nuvem. Esses competidores são jovens entre 17 e 22 anos de idade que representam o mercado de trabalho ou as escolas profissionais de seus países. O Brasil é representado por alunos e alunas do Senai e do Senac. Em Kazan, ficamos em terceiro lugar, atrás de Rússia e China. A WorldSkills Kazan 2019 foi a 45ª edição da WorldSkills Competition, que acontece a cada dois anos. São Paulo foi sede em 2015 e, em 2021, será a vez de Xangai, na China.

A conferência acontece de forma paralela à competição, com painéis, palestras e oficinas dedicados à discussão do papel da educação profissional nos dias atuais e aos assuntos que gravitam em torno da temática: políticas, inclusão e diversidade, habilidades necessárias e engajamento. Ter a oportunidade de ver a competição e a conferência é usufruir o melhor dos dois mundos: teoria e prática juntos.

As green skills

Um dos painéis que me chamou a atenção na conferência foi o “What are green skills? Making sense of the green economy”, com diversos legisladores e organizações. O tema central da discussão foi como dar à economia e à força de trabalho características e habilidades que nos permitam trabalhar em um cenário de transição de matrizes energéticas e também de economia circular.

Contudo, o que é uma habilidade sustentável? Segundo os painelistas, são aquelas que fazem sentido nos cenários descritos: gerenciamento de energia, tecnologias de construção, economia, logística, planejamento, hidráulica, elétrica etc. Além das habilidades técnicas, as “habilidades sociais” como criatividade, proficiência digital, comunicação, liderança e resolução de problemas também serão necessárias.

Segundo o documento “Skills for the Greener Future”, da Organização Internacional do Trabalho, apenas 2% da força global de trabalho será afetada por esses cenários. Ainda assim, são trabalhos que não irão desaparecer, mas que exigirão realocação e treinamento; já as pessoas que ocupam vagas que, sim, irão desaparecer poderão usar suas habilidades em indústrias em expansão — estamos falando em cerca de 100 milhões de novos empregos.

No entanto, a criação desses postos de trabalho e o treinamento das pessoas dependem de uma ação conjunta de toda a sociedade. Conforme disse Buti Manamela, vice-ministro de Treinamento e Educação Superior da África do Sul, “é importante que governo e setor privado trabalhem para despertar o interesse da juventude nessas habilidades”. O descompasso atual entre as habilidades requeridas e aquelas necessárias é um grande entrave para a ocupação dos postos de trabalho e o desenvolvimento de uma economia sustentável. Atualmente, dois a cada cinco trabalhadores de países-membros da OCDE são afetados por esse desencaixe.

São algumas razões para isso: a falta de coordenação entre governos, indústrias e economia; a baixa diversificação da economia; o acesso às energias renováveis; e os sistemas de ensino.

A responsabilidade sobre a transição para as habilidades e a economia sustentáveis recai majoritariamente sobre o governo, seja nos estímulos econômicos, seja na adaptação dos currículos escolares e profissionalizantes.

Ao mesmo tempo, o mercado e os consumidores devem ajudar na criação da demanda por produtos e serviços que utilizem as habilidades sustentáveis. Sindicatos e empresas podem — e devem — investir na requalificação e no upskilling dos profissionais.

O caminho é longo e promissor. Falaremos mais sobre isso em breve!