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Nosso octeto em ação, em 2017: Thiago Ceconi, Luciano Vieira, André Zappalenti, eu, André Rosa, Carol Balbi, Felipe Oliveira e Pedro Almeida.
Nosso octeto em ação, em 2017: Thiago Ceconi, Luciano Vieira, André Zappalenti, eu, André Rosa, Carol Balbi, Felipe Oliveira e Pedro Almeida.

Liderança como provocação

Já falei por aqui mais de uma vez o quanto gostei de ler o “Yes to the Mess!”, especialmente as observações relacionadas à liderança e ao papel do líder. Ainda vamos falar sobre o fato de gastarmos tempo demais exaltando e discutindo “liderança” e dando pouca importância ao “seguir”.

Porém hoje, quero comentar rapidamente uma definição interessante que Frank J. Barrett traz para a mesa sobre liderança: a “Competência Provocativa”, ou a “habilidade de criar dissonâncias e discrepâncias que servem de gatilho para as pessoas se afastarem das posições habituais e dos padrões repetitivos”. Barrett diz que “Kind of Blue”, uma das obras-primas do Miles Davis, nasceu por causa das provocações do artista. Todas as músicas foram gravadas “de primeira”, os músicos tinham somente pedaços das partituras, e o mais importante: Miles acreditava que seus músicos eram capazes de dar o que ele queria.

Para Frank Barrett, a liderança precisa ser encarada como um exercício de design que permita o autodesenvolvimento das pessoas. Nesse caso, significa trabalhar com os recursos que temos à disposição, focar nas habilidades e nos pontos fortes das pessoas que fazem o nosso time e ir colocando pequenas doses de disrupção na rotina.

Sentindo a disrupção e a provocação na pele

Facilito o processo de aprendizagem nas organizações e nas pessoas de dia, e toco bateria toda terça-feira à noite em uma prática de banda de jazz. Definimos um repertório no começo do semestre, praticamos essas três ou quatro músicas semanalmente e nos apresentamos no fim do período.

Uma das grandes descobertas que tive nesses quase três anos de prática do estilo foi entender a alternância de papéis na música. Todos os músicos são líderes e seguidores. Você acompanha, vira solista por alguns compassos e volta para o acompanhamento. Não há escapatória, mesmo pra quem não se sente confortável solando, o que é meu caso. Você precisa aparecer e tocar. Ponto.

As doses de provocação e disrupção aparecem a todo momento, e o Luciano Vieira, nosso professor e diretor musical, sempre soube pontuá-las, tanto após as músicas, sugerindo novas abordagens para a próxima execução, como parando o ensaio e propondo uma nova forma para um solo.

Alguns desses feedbacks podem tirar as pessoas do lugar. Aconteceu comigo no ensaio final do semestre passado. Embananei-me durante meu solo em “Question and Answer”, do Pat Metheny. O Luciano identificou uma oportunidade de melhoria e sugeriu uma correção. Na hora, não reagi bem, mas tudo se resolveu com uma conversa madura. Ele sabia que eu conseguiria entregar o que ele queria. Eu também, mas não tinha entendido na hora. Desse momento, ficam algumas lições que podemos aplicar na vida corporativa:

  1. Comece devagar – entenda quem é quem no seu time, quais são os pontos fortes e fracos de cada um. Use as forças para resolver as fraquezas. No caso da música, eu consigo entregar um groove forte, mas ainda sou tímido no solo. Em vez de fazer qualquer coisa quando estou liderando a banda, comecei sendo incentivado a usar pequenas variações do groove como solo. Com o tempo, fui ganhando confiança e achando soluções para os novos caminhos.
  2. Mudanças vêm aos poucos e sempre — Em vez de mudar todo o andamento ou a estrutura de uma música, que tal começar aos poucos? Quebrar um grande problema em pequenos blocos pode ajudar na solução. Em um dia, pensamos em tocar uma música mais rápido ou mais devagar. No outro, trocamos a ordem dos solistas. Em um terceiro dia, arriscamos novas convenções. Pouco a pouco, mas sempre.
  3. Conversas maduras resolvem problemas – Como relatei, não reagi bem à forma do feedback e não me comportei da maneira adequada. No entanto, passados o ensaio e a apresentação, tive uma conversa madura com o Luciano, na qual pudemos falar de coração aberto sobre o que pode ser melhorado. Deixar a poeira baixar e ter uma conversa madura ajuda bastante no ambiente de trabalho e no sentimento de pertencimento na equipe.

Propor desafios e provocar é uma característica que pode fazer a diferença no desenvolvimento das pessoas. Que tal tentar?

Um novo olhar sobre tecnologias e aprendizagem

Há um tempo, Jane Bozarth tuitou duas boas provocações sobre tecnologia e aprendizagem: “Precisamos parar de falar ‘tecnologias de aprendizagem’ e começar a perguntar: ‘Como essa tecnologia pode ser usada para apoiar a aprendizagem?’”, para depois completar com: “Melhor: ‘Eu tenho um problema. Como a tecnologia pode me ajudar nisso?’”.

Eu adorei essa provocação. Vivemos uma relação conflituosa com a tecnologia, começando por uma confusão com a própria palavra. “Tecnologia” é um termo amplo; dicionários diferentes têm definições distintas, porém faz um tempo que virou sinônimo para qualquer coisa digital, especialmente no meio da educação e da aprendizagem. Não podemos esquecer que a lapiseira e o esquadro são tecnologias da mesma forma que machine learning ou um aplicativo para ensinar idiomas.

No entanto, tudo virou tecnologia, tudo depende da tecnologia, queremos confiar decisões para a tecnologia, e eu não quero demonizar a palavra ou o conceito. Pelo contrário, quero propor uma discussão sobre o tema, afinal esse estado atual das coisas faz com que a gente se esqueça de que muitos problemas podem ser solucionados de maneiras “não tecnológicas”. Nesse sentido, o post da Jane Bozarth sobre o assunto é preciso. Em “10 motivos pelos quais você não precisa de ‘tecnologias de aprendizagem’ para permitir o aprendizado no trabalho” (em inglês), os pontos importantes continuam sendo a mudança na cultura organizacional e o desenvolvimento de habilidades como autonomia e criatividade para que a aprendizagem aconteça.

 

Isso me leva a outra reflexão, baseada neste texto maravilhoso do Don Norman: “Por que as tecnologias ruins dominam nossas vidas”. É uma leitura interessantíssima, escrita por uma das sumidades do design e da interação, e que apresenta dois pontos importantes: por que estamos vivendo uma época dominada por tecnologia e podemos (re)inverter a ordem das prioridades, colocando pessoas e habilidades antes de máquinas e algoritmos.

 

Norman apresenta um bom argumento quando fala sobre a curiosidade humana: “A curiosidade é, no todo, uma virtude. Nos evoluímos para sermos curiosos e nosso sistema nervoso é especialmente sensível à mudança, e as mudanças no ambiente atraem nossa atenção. Mas a visão centrada na tecnologia lida com esse trato natural e criativo como uma falha: a curiosidade vira distração. Uma virtude humana transformou-se em passivo.”

 

E aí somos obrigados a utilizar softwares que nos obrigam a fazer tarefas repetitivas, que não permitem novas formas de trabalho; perdemos horas atualizando coisas, respondendo a e-mails, tentando acabar com qualquer forma de criatividade ou curiosidade possível.

 

Quando deveria ser o contrário.

 

É mais ou menos o que falei no post sobre proficiência digital. Quando pensei em usar o Slack ou o Basecamp na gestão de projetos, eu desconsiderei as pessoas e suas habilidades. Era como se eu tivesse a solução para um outro problema. Pense quantas vezes isso aconteceu com você, em sua organização. Ficamos encantados com a tecnologia, mas não pensamos se ela é útil para solucionar algum problema ou ampliar as nossas habilidades naturais.

 

Por isso, propomos um pensamento convergente com Don Norman e Jane Bozarth: coloque as pessoas no centro da discussão, entenda o problema ou o desafio e pense se a adoção de uma nova tecnologia expandirá nossas habilidades ou servirá para facilitar algum processo que permita o desenvolvimento das pessoas. Se a resposta for “sim”, é possível que você esteja no caminho certo.

É muito difícil desenvolver o pensamento crítico?

Pensar é difícil.

Como assim “Pensar é difícil”? É difícil pra caramba e o vídeo abaixo do Veritasium explica bem a razão. Ele é baseado no conceito do livro “Rápido e devagar” do psicólogo Daniel Kahneman, que divide a mente humana em dois sistemas. Enquanto o sistema 1 toma decisões rápidas, automáticas e faz o processamento e descarte de informação, o sistema 2 é mais lento, consciente e lógico. O sistema 1 sabe qual é o resultado de “2×2”. Já o sistema 2 é o responsável pelo cálculo de contas mais complexas, como “13×22”.

É interessante entender como os dois sistemas trabalham em conjunto. Basicamente, o segundo sistema precisa da perspicácia do primeiro para ter sucesso no seu processo. E, como explicado no vídeo, as coisas podem complicar quando o Sistema 1, rápido e automático, faz o trabalho do sistema 2, o mais lento e lógico.

Existem várias literaturas e vídeos interessantes sobre o tema. Trouxemos esse ponto da forma como pensamos para fazer um gancho com o pensamento crítico, e aí vem a pergunta:

Se pensar é difícil, imagina praticar o pensamento crítico.

Exatamente. Não raro, tomamos decisões e damos respostas sem parar para pensar na própria pergunta. O exemplo do vídeo do Veritasium é ótimo. Imagine que te perguntem: “Um taco e uma bola de baseball custam juntos U$1,10. O taco custa um dólar a mais que a bola. Quanto custa a bola?”

Existem grandes chances de você responder errado: Dez centavos de dólar, sendo que a resposta correta é cinco centavos. E isso é o sistema 1 entrando em ação, respondendo de maneira automática com base nas suas experiências e informações prévias.

Em contextos mais sérios, é exatamente isso o que acontece quando não utilizamos o pensamento crítico. Respondemos de maneira automática às situações, sem levar em conta o contexto, as informações e as consequências. Em outra oportunidade, falamos sobre a importância do pensamento crítico no dia a dia pessoal e profissional, inclusive com quatro dicas:

  1. Faça perguntas básicas
  2. Não de nada como garantido
  3. Analise os dados
  4. Conheça seus padrões de pensamento

E é curioso perceber como essas dicas são parecidas com a do vídeo abaixo, que traz exemplos interessantes.

A chave para desenvolver o pensamento crítico passa por criar uma metodologia de pensamento, que te permita entender a situação, avaliar possibilidades e informações e tomar a melhor decisão. No final das contas, o objetivo é fazer que o sistema 2 do nosso cérebro seja o responsável pela decisão final. Não é fácil, porque ele é preguiçoso e precisa ser estimulado.

Isso que vai te permitir tomar decisões melhores, baseado nas informações que o sistema 1 disponibiliza. Afinal, o pensamento crítico se apoia nas informações que temos e nas experiências que tivemos para essa tomada de decisão. Mas também se apoia na reflexão, ponderação e questionamento.

É desafiador e o resultado compensa!

 

Por que(m) estou partindo por um novo desafio

"O progresso é impossível sem mudança, e aqueles que não conseguem mudar suas mentes não conseguem mudar nada."
George Bernard Shaw

Aos 39 anos, eu e minha companheira, Marina, decidimos ser pais. Não que ambos nunca tivéssemos pensado nisso na vida em momentos ou relacionamentos anteriores, apenas não tínhamos levado adiante o projeto. Decisão tomada, rapidamente fechamos negócio com a Cegonha, que nos trouxe o pequeno Otto cerca de dois meses depois que eu completei 40.

Por obra do destino (mentira, foi opção mesmo, já que em 2013 escolhi abrir minha própria empresa) tive a felicidade de tirar 20 dias de licença paternidade, quando a lei garante apenas cinco. No meu caso, esse seria o pior cenário possível, já que o bebê nasceu em uma quinta-feira, véspera de feriado, depois de aproximadamente 20 horas de intenso trabalho de parto. Na prática, eu teria dois dias úteis (incluindo a data do parto, que acompanhei segundo a segundo) e três dias de “folga” para aprender umas tantas funções de pai entre novidades a cada instante e noites mal dormidas.

E assim foi. Ao longo de 20 dias após o nascimento do Otto, permaneci o tempo todo ao lado dele e da minha companheira, cortando quase que totalmente o contato com o trabalho. Digo “quase” por dois motivos: o primeiro porque esse foi de fato o combinado com o time, que me apoiou incondicionalmente para que eu pudesse me dedicar ao que, dali em diante, seria o cargo mais importante da minha vida; e o segundo porque, embora estivesse fora do ambiente profissional, segui aprendendo, e muito. Afinal, para exercer a minha atual ocupação, não basta trabalhar com aprendizagem – é preciso vivê-la.

Eu disse “cargo”? Pois é, os que me conhecem minimamente sabem que não dou a mínima para denominações corporativas e postos hierárquicos, embora entenda e respeite as pessoas e as empresas que ainda precisam deles. Eu, por minha vez, acredito muito mais nos papéis e nas responsabilidades de cada um dentro dos diversos contextos estabelecidos na complexidade de uma vida humana. Por que estou dizendo isso? Ah, sim, porque o meu contexto atualmente é bem diferente do que era uns bons meses atrás: entre os muitos que sou, me tornei pai, e não há nada mais importante na minha vida nesse momento.

Daí se explica a escolha do título e da epígrafe que encabeçam este texto: encarar um novo desafio era preciso, mudar era preciso, porque sem isso não seria possível progredir como pessoa (e como profissional, uma vez que os dois não são realmente indissociáveis). Não pretendo falar aqui sobre as maravilhas de ser pai. Antes de sê-lo, as ouvi inúmeras vezes e acreditei nelas, mas, depois, passei a vivê-las de fato e me juntei ao coro dos que dizem que é uma experiência inefável (há quanto tempo não usava esse termo!).

Quero saber o resto da história.
Quero ir direto para o final.

Os motivos da escolha

Chegando o fim da licença maternidade, bateu forte aquela preocupação: como ficaria o Otto, com pai e mãe trabalhando em tempo integral? Sendo eu e Marina “estrangeiros” sem família em São Paulo, avós ou tios não eram opção. Então, elencamos nossas possibilidades: uma creche ou uma cuidadora, ambas com suas implicações.

Em geral, tentamos ser pais desencanados e, por mais que essa primeira viagem traga várias dúvidas e receios naturais, optamos por fugir à superproteção. Porém, muita leitura e um bom número de pediatras nos trouxeram a informação que, antes de completar o primeiro ano de vida, é muito comum que as crianças das creches (pelo contato constante com um maior número de pessoas em ambientes fechados) estejam mais suscetíveis a vírus e bactérias. Some-se a isso o fato de que, por uma série de aspectos, gostaríamos de colocá-lo em uma creche pública, que não teria como oferecer o leite materno ao pequeno. Como a OMS recomenda seis meses de aleitamento exclusivo (exceto para os casos em que essa possibilidade realmente não existe), este também tornou-se um fator decisivo. Nosso objetivo é amamentá-lo pelo menos durante o primeiro ano de vida (o que está fortemente relacionado ao desenvolvimento imunológico, entre outros milhares de benefícios), mesmo após a introdução de alimentos sólidos.

Restava a segunda opção: uma cuidadora. Com ela, além de manter uma distância maior dos vírus e das bactérias de plantão, teríamos a possibilidade de manter o aleitamento materno, já que Marina trabalha perto de casa e pode vir para o almoço quase todos os dias. Alternativamente, a cuidadora poderia levá-lo até o trabalho dela ou dar o leite periodicamente retirado e armazenado para esse fim.

Mas aí vieram as implicações: quem seria essa pessoa? Que tipo de qualificações ela deveria ter? Discutimos um certo número de pré-requisitos possíveis para uma babá e descartamos a necessidade de ser uma (cara e) especializada cuidadora de bebês. Precisava ser de confiança, ter carinho, paciência (isto é, gostar de crianças!) e, preferencialmente, algumas referências que atestassem essas características. Já tínhamos uma forte indicação, que era a mãe de uma colega de trabalho da Marina (o que praticamente preenchia o primeiro pré-requisito). Ligamos para a família em que ela trabalhara anteriormente e, entre outras coisas, ouvimos: “De todas as babás que entrevistei, ela foi a única que demonstrou interesse genuíno pela minha filha acima de todas as outras questões, inclusive financeiras. Ela fez um ótimo trabalho.”. Depois disso, ligamos para mais uma ou duas pessoas, mas já quase convictos de que tínhamos a candidata certa.

Não, não estava tudo resolvido. Depois de tantas análises, ainda restava um dilema que, frequentemente, salta ao coração das famílias: iríamos pagar para alguém fazer o trabalho que mais gostaríamos de fazer. Esta é a lógica do sistema: somos contratados por uma empresa ou pessoa que tem mais recursos financeiros do que nós (que somos bastante privilegiados, diga-se de passagem) e ocupamos postos de trabalho que nos permitem contratar outras pessoas para determinados tipos de serviços… (respira!) para que possamos nos manter nesses postos (ou ser promovidos) e ter um “bom” padrão de vida. Ora, mas quando é que esse padrão se tornou mais importante do que ver o meu filho se desenvolver nessa fase tão mágica? – perguntei a mim mesmo.

Eventualmente, as pessoas se propõem um “sabático”, coisa que eu nunca fiz. Então, decidi lançar mão de algumas economias e empreender um projeto ousado: tirar uma espécie de licença paternidade de seis meses para ficar mais perto do meu filho até que ele complete um ano de vida. Marina imediatamente concordou.

Existe um detalhe: embora eu seja de fato um privilegiado por poder emplacar um projeto como esse, reconheço plenamente a importância do trabalho, e foi por causa dele que cheguei até aqui. Isso sem contar que gosto muito de trabalhar com aprendizagem, o que exige uma atualização constante. Assim, para me manter ligado, busquei um ponto de equilíbrio: de segunda a quarta ficar com o Otto, quinta e sexta trabalhar como freelancer, estudar alguma coisa, enfim… manter o contato com esse universo de alguma maneira.

Levei a decisão para o time na 42formas. De coração aberto, eu estava disposto a abrir mão dela, se necessário, porque não queria atrapalhar o andamento das coisas, nem ser injusto com os meus colegas que trabalham tanto, todos os dias úteis da semana (e muitas vezes além). No primeiro momento, confesso que fiquei surpreso não com o acolhimento que recebi pela escolha de vida, mas pela posição unânime do Felipe e da Isabella em dizer que seguiríamos juntos como empresa. E foi ali que eu entendi na plenitude o que significa uma cultura forte, um DNA. E o quanto sou feliz por ter participado dessa construção.

Para finalizar


O objetivo inicial aqui era explicar aos clientes, fornecedores, enfim… parceiros e simpatizantes da 42formas e da nossa filosofia que, há cerca de um mês, quando Marina voltou ao trabalho, iniciamos um processo de transição para que, a partir de maio, eu possa ficar três dias da semana inteiramente por conta do nosso filhote e dois dedicados ao trabalho. Para mim, no final das contas, escrever esse texto acabou se tornando algo maior, uma espécie de síntese da minha compreensão a respeito do que acreditamos como o valor de uma empresa para a sociedade.

Esse não é apenas um jeito de dizer para o “mercado” que nós verdadeiramente apoiamos o que é mais importante para cada um, a qualidade de vida, o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional, etc. – mas de mostrar, na prática, que vale a pena pelo menos tentar fazer diferente. Disse um sábio que as palavras ensinam, mas o exemplo arrasta e, por mais que isso pareça o maior clichê do universo – assim como ser pai – nada é mais adequado para uma empresa cujo maior desejo é promover a aprendizagem, não é mesmo?

 

Ah, ficou aquela pulguinha sobre por que coloquei “mercado” entre aspas? Provavelmente, ainda escreverei sobre isso, mas, se quiser, podemos conversar a respeito, travar um debate, trocar ideias… Será um prazer, é só me dar um toque! 🙂

Miguel Thompson, Felipe Menhem, Ani Scandarolli e George Stein no SXSW EDU @ Explore | Foto: Gui Alves
Miguel Thompson, Felipe Menhem, Ani Scandarolli e George Stein no SXSW EDU @ Explore | Foto: Gui Alves

[Evento] SXSW EDU @ Explore

Na quarta, 17/04, aconteceu o primeiro evento co-organizado pela 42formas, junto com a Explore Aprendizagem Criativa. O “SXSW EDU @ Explore” foi uma reunião para compartilhar os aprendizados do SXSW EDU e teve a presença de pessoas super legais no palco e na plateia. 🙂

Eu, Anielle Scandarolli, George Stein, Miguel Thompson e Vanessa Mathias, falamos sobre o festival, nossos aprendizados e trocamos bastante com os presentes. Para quem não pode estar lá, o evento foi todo gravado. Confira o vídeo e algumas fotos.

Vídeo

Fotos

Ani Scandarolli no SXSW EDU @ Explore | Foto: Gui Alves

Vanessa Mathias falando no SXSW EDU @ Explore | Foto: Gui Alves

Público no SXSW EDU @ Explore | Foto: Gui Alves

Felipe Menhem no SXSW EDU @ Explore | Foto: Gui Alves

George Stein no SXSW EDU @ Explore | Foto: Gui Alves

Miguel Thompson, Felipe Menhem, Ani Scandarolli e George Stein no SXSW EDU @ Explore | Foto: Gui Alves

Painel dos palestrantes no SXSW EDU @ Explore | Foto: Gui Alves

 

 

Vamos repetir mais vezes! 🙂

[Workshop] As habilidades do futuro

Quem nos acompanha sabe o quanto falamos habilidades sociais necessárias para o ambiente de trabalho do futuro. Aquelas que irão fazer a diferença no dia a dia em nossas vidas e nosso trabalho, especialmente em um cenário de excesso de informação e com o “medo” de termos nossas vagas sendo substituídas por robôs, inteligência artificial e afins.

Das nossas pesquisas e experiências, saíram quatro habilidades, que você já deve ter visto e lido por aqui: pensamento crítico, resolução criativa de problemas, colaboração e aprender a aprender.

Na quinta, 28/03, a gente teve a oportunidade de apresentar esse conteúdo de uma maneira nova, por meio de um bate-papo e workshop na VRS Academy, espaço criado em Jundiaí por nossa amiga e parceira Vivian Rio Stella. Dentro da programação do espaço, nas últimas quintas do mês acontece o “Papo Cabeça? Com cerveja!”, onde a conversa é acompanhada pelas cervejas selecionadas pelo Guilherme Rossi da Beer Market Jundiaí.

Foi muito legal poder conversar por mais de duas horas sobre transformação digital e essas habilidades do futuro, entendendo a experiência e desafio dos participantes e compartilhando o que estamos vendo sobre esses temas.

O mais legal é que esse conteúdo tem versões de uma hora a quatro horas. Ou seja, pode ir de uma palestra até um workshop mais aprofundado sobre os temas. Legal, não é?

A sessão foi toda gravada também, confira:

O que aprender para prosperar no novo ambiente de trabalho?

Como aquecimento para nossa participação no SXSW EDU 2019, vamos compartilhar ao longo dos próximos dias alguns dos aprendizados da edição passada.


Temos uma fascinação pela tecnologia e por prever o futuro. Pense em séries e filmes que faziam esse exercício de futurologia, pode ser ’“Os Jetsons” até “Minority Report”, passando por “Perdidos no Espaço”. Imaginamos como seria a interseção e a nossa interação com a tecnologia. Carros voadores, robôs fazendo o nosso trabalho, como as máquinas e sistemas se comportariam e como a gente se comportaria em relação aos sistemas e às maquinas?

Pense que em 1964, o escritor Isaac Asimov falava que “robôs ainda não serão algo comum ou muito avançado, mas já estarão presentes” e “instrumentos eletrônicos continuarão a ser criados para livrar os humanos de trabalhos tediosos”. Não sabemos qual era a régua de Asimov para “muito avançado”, mas é seguro dizer que em 2018, robôs são algo bastante comum e, porque não, estão avançados.

Ao ponto das escolas colocarem em seus currículos matérias como “linguagem de programação” e “computação”.  Subitamente, foi dito que todos nós precisamos aprender essas habilidades para mantermos nossos empregos ou, no pior dos casos, termos um emprego no futuro.

No entanto, em um cenário onde todas as pessoas irão saber as habilidades técnicas ou que as maquinas irão fazer o trabalho com essas habilidades, quais serão as características necessárias para o ambiente de trabalho do futuro? A resposta está nas habilidades sociais e comportamentais, as soft skills.

“Trabalhadores e trabalhadoras do futuro vão gastar mais tempo em atividades nas quais as máquinas são menos capazes de fazer, como gerenciar pessoas, aplicar a experiência, comunicar com outras pessoas. Essas pessoas vão gastar menos tempo em atividades físicas previsíveis e em coletar e processar dados, tarefas que as máquinas já são mais eficientes que o ser humano. As habilidades e capacidades necessárias também irão mudar, precisando mais de habilidades sociais e emocionais e mais capacidades cognitivas avançadas, como argumentação lógica e criatividade.” – Relatório Mckinsey

O ensino e desenvolvimento dessas habilidades foi um dos eixos centrais de discussão das conferências SXSW e SXSW EDU 2018. A discussão partiu em cima de algumas premissas: A requalificação da criatividade; a importância de “falhar rápido” e assimilar essa falha e, finalmente, o desenvolvimento de algumas habilidades fundamentais: o pensamento crítico, o trabalho em equipe e a resolução de problemas de forma criativa.

 

A requalificação da criatividade

O conceito de criatividade – e das pessoas criativas – está sendo revisto. Se antes a criatividade era um dom para pessoas selecionadas, agora está sendo conceituada como uma habilidade que pertence a todos. Habilidade, não dom, percebem a diferença? Na visão de Lucy L. Gilson e Nora Madjar, da Universidade do Connecticut, a criatividade pode ser dividida em dois grupos: radical e incremental.

A criatividade radical é a face “popular” da habilidade. É aquela onde colocamos Pablo Picasso, Steve Jobs, Marina Abramovic dentre outras pessoas e suas criações e formas de enxergar o mundo.

A criatividade incremental pode ser menos chamativa, mas é a forma que a grande maioria de projetos precisam continuar para prosperar. E essa forma vem da experiência, da tentativa e erro, da observação.

Ou seja, há espaço para a criatividade em todos os setores produtivos, de uma agência de publicidade à uma empresa de engenharia, passando por uma planta de fábrica. A criatividade incremental pode e deve ser incentivada no ambiente de trabalho e nas escolas.

 

“Nem todas as pessoas têm o que é necessário para fazer a revolução. Mas todos podem fazer a evolução”.

 

Tudo bem fracassar e perder

O excesso de proteção e o excesso de expectativas podem ser cruéis com o processo de aprendizado e com a auto-estima das pessoas. Em “The Gift of Failure” (aqui em português), a autora Jessica Lahey discute a influência das expectativas dos pais nas notas (e no aprendizado) dos seus filhos. Segundo Lahey, que também é professora, 20% dos seus alunos e alunas são recompensados financeiramente pelos pais quando tiram boas notas e 90% acham que são mais amados quando trazem boas notas.

O ponto aqui é a superproteção e o medo dos filhos falharem. Quando os pais tentam tirar a falha e a frustração da vida de seus filhos, eles acabam criando crianças incompetentes, incapazes, sem confiança e super dependentes. Logo, despreparadas para o mundo real, onde estamos propensos a falhar mais e onde temos mais coisas em jogo.

As habilidades do futuro

Já falamos algumas vezes sobre a importância das habilidades sociais nos dias atuais. Aqui, estressamos um pouco mais algumas dessas habilidades.

Pensamento crítico

O pensamento crítico é apenas processamento deliberado e sistemático de informações para que possamos tomar as melhores decisões e, em geral, entender melhor as coisas. Essas informações podem vir de várias fontes: jornais, filmes, revistas, conversas e, claro, através da nossa própria experiência de vida.

Considerando isso, ao invés de reagir sem pensar ao que vemos, ouvimos e discutimos, utilizando o pensamento crítico, podemos tomar um tempo para analisar o problema.

O pensamento crítico torna-se uma habilidade útil em diversas situações. Seja em novas formas de solucionar problemas e analisar situações no ambiente de trabalho/escolar/social ou dar recursos para analisar as informações que recebemos diariamente.

Existem diversas formas de desenvolver essa habilidade, mais notadamente:

 

Fazendo perguntas básicas – Frente a um problema, é importante pensar no que já sabemos sobre ele e como ficamos sabendo sobre ele – foi através da nossa própria experiência ou a experiência de terceiros -, o que é preciso provar, o que está sendo descartado, demonstrado e o que não está sendo visto.

Não dando nada como garantido – Mesmo sendo uma situação conhecida e que tem uma resposta/abordagem pronta, é importante questionar se essa é a melhor opção. Existe uma outra forma de abordar essa situação? Colocar uma interrogação no lugar de um ponto final pode abrir outras possibilidades.

Analisando os dados já existentes. Não faz sentido começar a resolver um problema do zero se alguém já passou por isso e pode compartilhar a experiência. No entanto, é importante analisar as informações de maneira crítica ou chegaremos nas conclusões erradas. Isso é particularmente importante em notícias que não tem fonte ou tem fontes genéricas, por exemplo. Por isso, é fundamental fazer uma análise sobre quem coletou esses dados, como esses dados foram coletados e qual foi a razão para isso.

Entendendo o nosso processo de pensamento e sabendo que ninguém consegue utilizar o pensamento crítico 100% do tempo. Afinal, somos humanos e humanos… humanizam as coisas. O pensamento crítico é uma ferramenta que precisa ser desenvolvida e, em diversos momentos, a emoção é mais forte do que a razão. Por isso, identifique esses momentos e tente evita-los no futuro.

 

Resolução de Problemas de forma criativa

Resolução de Problemas de forma criativa consiste no processo de redefinir os problemas e oportunidades e trazer respostas e soluções novas e inovadoras e tomar ação. É quase a amarração entre tudo o que foi dito, um guarda-chuva de outras habilidades como:

  • O aprendizado através do sucesso e do erro;
  • Trabalhar com equipes diversas;
  • Aprender de maneira independente (olá, “Existo, logo aprendo“);
  • Aceitar desafios e correr riscos;
  • Processar e investigar;
  • Pensamento inovador;
  • Persistência, garra e espírito empreendedor.

 

Há uma correlação entre aprender essa habilidade e o sucesso no ambiente de trabalho, segundo pesquisa feita pela Adobe.

  • 75% dos educadores e legisladores nos Estados Unidos afirmam que profissões que necessitam desta forma de resolução de problemas não deverão ser afetadas no futuro.
  • 92% dos educadores e 89% dos legisladores dizem que estudantes que se destacam na resolução criativa de problemas terão mais oportunidades de trabalhos com bons salários no futuro.
  • 90% dos educadores e 85% dos legisladores nos Estados Unidos dizem que essas habilidades estão em alta demanda pelos empregadores de hoje nas carreiras mais seniores.

Uma das formas de desenvolver a resolução de problemas de maneira criativa (e também o trabalho em equipe) é através de aprendizado baseado em problemas ou disciplinas transversais. Um dos exemplos mostrados no SXSW foi um workshop de cinco dias sobre biomimética, a capacidade de copiarmos elementos da natureza, onde os participantes deveriam sair com um projeto de uma exibição em três dimensões sobre transportes para um museu de ciências.

Ou seja, no final de tudo, fica claro que quanto mais a tecnologia e as ferramentas avançam, mais do que saber como operá-las, vamos precisar interpretar os dados e as relações que são feitas e apurar o que nos diferencia como espécie (e também das máquinas): a empatia e a capacidade de conectar pensamentos.