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O que aprender para prosperar no novo ambiente de trabalho?

Como aquecimento para nossa participação no SXSW EDU 2019, vamos compartilhar ao longo dos próximos dias alguns dos aprendizados da edição passada.


Temos uma fascinação pela tecnologia e por prever o futuro. Pense em séries e filmes que faziam esse exercício de futurologia, pode ser ’“Os Jetsons” até “Minority Report”, passando por “Perdidos no Espaço”. Imaginamos como seria a interseção e a nossa interação com a tecnologia. Carros voadores, robôs fazendo o nosso trabalho, como as máquinas e sistemas se comportariam e como a gente se comportaria em relação aos sistemas e às maquinas?

Pense que em 1964, o escritor Isaac Asimov falava que “robôs ainda não serão algo comum ou muito avançado, mas já estarão presentes” e “instrumentos eletrônicos continuarão a ser criados para livrar os humanos de trabalhos tediosos”. Não sabemos qual era a régua de Asimov para “muito avançado”, mas é seguro dizer que em 2018, robôs são algo bastante comum e, porque não, estão avançados.

Ao ponto das escolas colocarem em seus currículos matérias como “linguagem de programação” e “computação”.  Subitamente, foi dito que todos nós precisamos aprender essas habilidades para mantermos nossos empregos ou, no pior dos casos, termos um emprego no futuro.

No entanto, em um cenário onde todas as pessoas irão saber as habilidades técnicas ou que as maquinas irão fazer o trabalho com essas habilidades, quais serão as características necessárias para o ambiente de trabalho do futuro? A resposta está nas habilidades sociais e comportamentais, as soft skills.

“Trabalhadores e trabalhadoras do futuro vão gastar mais tempo em atividades nas quais as máquinas são menos capazes de fazer, como gerenciar pessoas, aplicar a experiência, comunicar com outras pessoas. Essas pessoas vão gastar menos tempo em atividades físicas previsíveis e em coletar e processar dados, tarefas que as máquinas já são mais eficientes que o ser humano. As habilidades e capacidades necessárias também irão mudar, precisando mais de habilidades sociais e emocionais e mais capacidades cognitivas avançadas, como argumentação lógica e criatividade.” – Relatório Mckinsey

O ensino e desenvolvimento dessas habilidades foi um dos eixos centrais de discussão das conferências SXSW e SXSW EDU 2018. A discussão partiu em cima de algumas premissas: A requalificação da criatividade; a importância de “falhar rápido” e assimilar essa falha e, finalmente, o desenvolvimento de algumas habilidades fundamentais: o pensamento crítico, o trabalho em equipe e a resolução de problemas de forma criativa.

 

A requalificação da criatividade

O conceito de criatividade – e das pessoas criativas – está sendo revisto. Se antes a criatividade era um dom para pessoas selecionadas, agora está sendo conceituada como uma habilidade que pertence a todos. Habilidade, não dom, percebem a diferença? Na visão de Lucy L. Gilson e Nora Madjar, da Universidade do Connecticut, a criatividade pode ser dividida em dois grupos: radical e incremental.

A criatividade radical é a face “popular” da habilidade. É aquela onde colocamos Pablo Picasso, Steve Jobs, Marina Abramovic dentre outras pessoas e suas criações e formas de enxergar o mundo.

A criatividade incremental pode ser menos chamativa, mas é a forma que a grande maioria de projetos precisam continuar para prosperar. E essa forma vem da experiência, da tentativa e erro, da observação.

Ou seja, há espaço para a criatividade em todos os setores produtivos, de uma agência de publicidade à uma empresa de engenharia, passando por uma planta de fábrica. A criatividade incremental pode e deve ser incentivada no ambiente de trabalho e nas escolas.

 

“Nem todas as pessoas têm o que é necessário para fazer a revolução. Mas todos podem fazer a evolução”.

 

Tudo bem fracassar e perder

O excesso de proteção e o excesso de expectativas podem ser cruéis com o processo de aprendizado e com a auto-estima das pessoas. Em “The Gift of Failure” (aqui em português), a autora Jessica Lahey discute a influência das expectativas dos pais nas notas (e no aprendizado) dos seus filhos. Segundo Lahey, que também é professora, 20% dos seus alunos e alunas são recompensados financeiramente pelos pais quando tiram boas notas e 90% acham que são mais amados quando trazem boas notas.

O ponto aqui é a superproteção e o medo dos filhos falharem. Quando os pais tentam tirar a falha e a frustração da vida de seus filhos, eles acabam criando crianças incompetentes, incapazes, sem confiança e super dependentes. Logo, despreparadas para o mundo real, onde estamos propensos a falhar mais e onde temos mais coisas em jogo.

As habilidades do futuro

Já falamos algumas vezes sobre a importância das habilidades sociais nos dias atuais. Aqui, estressamos um pouco mais algumas dessas habilidades.

Pensamento crítico

O pensamento crítico é apenas processamento deliberado e sistemático de informações para que possamos tomar as melhores decisões e, em geral, entender melhor as coisas. Essas informações podem vir de várias fontes: jornais, filmes, revistas, conversas e, claro, através da nossa própria experiência de vida.

Considerando isso, ao invés de reagir sem pensar ao que vemos, ouvimos e discutimos, utilizando o pensamento crítico, podemos tomar um tempo para analisar o problema.

O pensamento crítico torna-se uma habilidade útil em diversas situações. Seja em novas formas de solucionar problemas e analisar situações no ambiente de trabalho/escolar/social ou dar recursos para analisar as informações que recebemos diariamente.

Existem diversas formas de desenvolver essa habilidade, mais notadamente:

 

Fazendo perguntas básicas – Frente a um problema, é importante pensar no que já sabemos sobre ele e como ficamos sabendo sobre ele – foi através da nossa própria experiência ou a experiência de terceiros -, o que é preciso provar, o que está sendo descartado, demonstrado e o que não está sendo visto.

Não dando nada como garantido – Mesmo sendo uma situação conhecida e que tem uma resposta/abordagem pronta, é importante questionar se essa é a melhor opção. Existe uma outra forma de abordar essa situação? Colocar uma interrogação no lugar de um ponto final pode abrir outras possibilidades.

Analisando os dados já existentes. Não faz sentido começar a resolver um problema do zero se alguém já passou por isso e pode compartilhar a experiência. No entanto, é importante analisar as informações de maneira crítica ou chegaremos nas conclusões erradas. Isso é particularmente importante em notícias que não tem fonte ou tem fontes genéricas, por exemplo. Por isso, é fundamental fazer uma análise sobre quem coletou esses dados, como esses dados foram coletados e qual foi a razão para isso.

Entendendo o nosso processo de pensamento e sabendo que ninguém consegue utilizar o pensamento crítico 100% do tempo. Afinal, somos humanos e humanos… humanizam as coisas. O pensamento crítico é uma ferramenta que precisa ser desenvolvida e, em diversos momentos, a emoção é mais forte do que a razão. Por isso, identifique esses momentos e tente evita-los no futuro.

 

Resolução de Problemas de forma criativa

Resolução de Problemas de forma criativa consiste no processo de redefinir os problemas e oportunidades e trazer respostas e soluções novas e inovadoras e tomar ação. É quase a amarração entre tudo o que foi dito, um guarda-chuva de outras habilidades como:

  • O aprendizado através do sucesso e do erro;
  • Trabalhar com equipes diversas;
  • Aprender de maneira independente (olá, “Existo, logo aprendo“);
  • Aceitar desafios e correr riscos;
  • Processar e investigar;
  • Pensamento inovador;
  • Persistência, garra e espírito empreendedor.

 

Há uma correlação entre aprender essa habilidade e o sucesso no ambiente de trabalho, segundo pesquisa feita pela Adobe.

  • 75% dos educadores e legisladores nos Estados Unidos afirmam que profissões que necessitam desta forma de resolução de problemas não deverão ser afetadas no futuro.
  • 92% dos educadores e 89% dos legisladores dizem que estudantes que se destacam na resolução criativa de problemas terão mais oportunidades de trabalhos com bons salários no futuro.
  • 90% dos educadores e 85% dos legisladores nos Estados Unidos dizem que essas habilidades estão em alta demanda pelos empregadores de hoje nas carreiras mais seniores.

Uma das formas de desenvolver a resolução de problemas de maneira criativa (e também o trabalho em equipe) é através de aprendizado baseado em problemas ou disciplinas transversais. Um dos exemplos mostrados no SXSW foi um workshop de cinco dias sobre biomimética, a capacidade de copiarmos elementos da natureza, onde os participantes deveriam sair com um projeto de uma exibição em três dimensões sobre transportes para um museu de ciências.

Ou seja, no final de tudo, fica claro que quanto mais a tecnologia e as ferramentas avançam, mais do que saber como operá-las, vamos precisar interpretar os dados e as relações que são feitas e apurar o que nos diferencia como espécie (e também das máquinas): a empatia e a capacidade de conectar pensamentos.

Existo, logo aprendo – Parte 6: Aprendizagem ao longo da vida

Como aquecimento para nossa participação no SXSW EDU 2019, compartilhamos nos últimos dias alguns dos aprendizados da edição passada.

Nessa série, Marcos Arthur fala sobre as várias vertentes da aprendizagem. Se quiser, veja antes:

Parte 1 – Existo, logo aprendo

Parte 2 – Aprendizagem baseada em…

Parte 3 – Omni disciplina

Parte 4 – Aprendizagem informal

Parte 5 – Upskilling


A expressão vem do inglês lifelong learning e também não é nova (o conceito apareceu na Dinamarca em 1971). Baseia-se na constante, voluntária e automotivada busca pelo conhecimento por razões pessoais e profissionais o que, por si só, já pressupõe o engajamento daquele que aprende.

Os “aprendizes ao longo da vida” (lifelong learners) têm responsabilidade pelo próprio processo de aprendizagem e entendem que ela não pode ser “delegada”. Isso aponta para a valorização do “aprender a aprender” e para os processos centrados no indivíduo.

De tudo isso, é possível extrair uma tendência bem clara: a educação do futuro terá mais aprendizagem, com pessoas capazes de se apropriarem de seus próprios processos e, consequentemente, não só exigindo mais das instituições nesse sentido, mas ajudando a construi-las. Os aprendizes de amanhã terão plena consciência de que o ciclo de aprendizagem se confunde com a vida e que, enquanto estamos vivos, estamos aprendendo: existo, logo aprendo!

Existo, logo aprendo – Parte 5: Upskilling

Como aquecimento para nossa participação no SXSW EDU 2019, vamos compartilhar ao longo dos próximos dias alguns dos aprendizados da edição passada.

Nessa série, Marcos Arthur fala sobre as várias vertentes da aprendizagem. Se quiser, veja antes:

Parte 1 – Existo, logo aprendo

Parte 2 – Aprendizagem baseada em…

Parte 3 – Omni disciplina

Parte 4 – Aprendizagem Informal


Um processo que pode começar de maneira informal e partir para uma aprendizagem formal é o aprimoramento de habilidades normalmente exigido para evoluir na carreira profissional. Essa exigência pode vir do próprio aprendiz, que pode ter motivações que vão desde fazer um trabalho melhor (realização pessoal) até ocupar cargos mais altos; ou da empresa onde ele trabalha, que pode ter requisitos para aumentos de remuneração e/ou promoções, ou mesmo para a permanência de um determinado colaborador em uma função (manutenção do emprego). No caso da empresa, podemos destacar, ainda, a necessidade de inovar e/ou de se manter relevante no mercado por meio do reconhecimento de suas competências – que vêm, essencialmente, da força de trabalho.

Em ambos os casos, para que esse aprimoramento aconteça, é necessário o engajamento daquele que aprende, embora aqui não estejamos falando em aprendizagem centrada no indivíduo – o que resulta em um processo diferente de motivação e apropriação do conhecimento.

Naturalmente, se o aprendiz deseja algo relacionado à organização em que atua, estará muito mais engajado do que na situação inversa (quando a organização deseja algo dele). Isso explica porque, muitas vezes, os colaboradores não têm interesse nos treinamentos e cursos oferecidos ou pagos pela empresa, fazendo-os apenas por obrigação e tirando pouco proveito do aprendizado que poderia ter sido proporcionado. Assim, cabe à organização encontrar os fatores que motivam o colaborador a aprender, para que atue de modo a engajá-lo no processo.

A aprendizagem on the job (durante as atividades profissionais) costuma cumprir bem essa função, já que coloca o indivíduo no centro novamente (na prática, acaba sendo uma aprendizagem baseada em problema, projeto, etc.). Como nem tudo pode ser aprendido somente durante o trabalho, sobretudo quando se fala em aprimoramento de habilidades, algumas empresas estão buscando soluções alternativas – é o caso da Boeing, que trouxe o MIT para “dentro de casa” em uma parceria para treinar seus engenheiros de sistemas.

Veja também:

Parte 6 – Lifelong Learning

Existo, logo aprendo – Parte 4: Aprendizagem informal

Como aquecimento para nossa participação no SXSW EDU 2019, vamos compartilhar ao longo dos próximos dias alguns dos aprendizados da edição passada.

Nessa série, Marcos Arthur fala sobre as várias vertentes da aprendizagem. Se quiser, veja antes:

Parte 1 – Existo, logo aprendo

Parte 2 – Aprendizagem baseada em…

Parte 3 – Omni disciplina


A aprendizagem informal também pode ser entendida como centrada no indivíduo, uma vez que acontece no dia a dia e está totalmente relacionada às necessidades e/ou aos interesses do aprendiz. Por isso, ela também é capaz de gerar maior engajamento e apropriação do processo por parte daquele que aprende. Além disso, a aprendizagem informal muitas vezes estimula o processo formal, levando o aprendiz a se aprofundar sobre um determinado tema (por exemplo, quando uma criança lê uma palavra desconhecida e pergunta para o professor seu significado ou quando um cozinheiro ocasional decide fazer um curso de gastronomia).

Um exemplo de aprendizagem informal que envolve elementos formais são os Teach-outs (“ensino para fora”, em tradução livre) criados pela Universidade de Michigan. A proposta é endereçar problemas sociais por meio do envolvimento de vários agentes da comunidade, utilizando o conhecimento produzido pela academia.

A aprendizagem informal ganhou ainda mais potencial na chamada era digital, com o aumento dos tutoriais disponíveis na internet, ferramentas como o YouTube e a proliferação de conteúdos livres em que qualquer um pode ensinar ou aprender algo.

Veja também:

Parte 5 – Upskilling

Parte 6 – Lifelong Learning

Existo, logo aprendo – Parte 3: Omni disciplina

Como aquecimento para nossa participação no SXSW EDU 2019, vamos compartilhar ao longo dos próximos dias alguns dos aprendizados da edição passada.

Nessa série, Marcos Arthur fala sobre as várias vertentes da aprendizagem. Se quiser, veja antes:

Parte 1 – Existo, logo aprendo

Parte 2 – Aprendizagem baseada em…


Uma aprendizagem baseada na prática e, consequentemente, centrada no indivíduo, não pode lançar mão de conteúdos “encaixotados”. Afinal, um problema, um projeto,  um desafio ou uma experiência, na maior parte das vezes, tem um grau de complexidade que ultrapassa uma única matéria ou disciplina. Mesmo quando isso não acontece por completo, a disciplina foco usualmente é trespassada por outros aspectos, principalmente quando o processo de aprendizagem vem do próprio indivíduo e sofre interferência dos formatos e/ou dos conteúdos acessados por ele.

Nesse sentido, a multidisciplinaridade, a interdisciplinaridade e a transdiciplinaridade passam a ser a “regra” e se misturam o tempo todo, integrando de diferentes maneiras as várias matérias existentes. Isso pode requerer que, em um processo de aprendizagem, estejam envolvidos diversos facilitadores, com variados conhecimentos, formações e habilidades. Escolas como as citadas anteriormente também já estão de Além disso, já existem iniciativas especializadas na implementação desse tipo de aprendizagem nas escolas, como o Digital Promise Challenge Institute, o Buck Institute for Education, e a Edutopia.

Veja também:

Parte 4 – Aprendizagem Informal

Parte 5 – Upskilling

Parte 6 – Lifelong Learning

Existo, logo aprendo – Parte 2: Aprendizagem baseada em…

Como aquecimento para nossa participação no SXSW EDU 2019, vamos compartilhar ao longo dos próximos dias alguns dos aprendizados da edição passada.

Nessa série, Marcos Arthur fala sobre as várias vertentes da aprendizagem. Confira a primeira parte desse post aqui.


Problema. Projeto. Desafio. Experiência. E várias outras. Nenhuma dessas ideias é nova, e todas elas de alguma forma derivam de uma aprendizagem baseada na prática, ou learn by doing (aprender fazendo), como propôs o pensador John Dewey entre o final do século XIX e o início do século XX. O ponto comum entre essas modalidades é o foco no aprendiz, isto é, não partem de uma teoria previamente dada de alguém para alguém, mas de uma prática que necessariamente evoca o envolvimento desses aprendizes no processo de desenvolvimento e apropriação do próprio conhecimento.

Essa apropriação é fruto de um processo de engajamento que se inicia na proposta – resolver um problema, construir um projeto, vencer um desafio, viver uma experiência, etc. – mas se desenvolve na forma como os aprendizes buscam recursos para atingir o resultado, e isso é o próprio processo de aprendizagem.

Na medida em que essa busca é feita pelos indivíduos que aprendem, eles tendem naturalmente a favorecer conteúdos e formas que se conectam com seus estilos, suas personalidades, seus contextos (histórico, social, etc.) – isto é, temos uma aprendizagem personalizada sem que seja necessário um ensino personalizado. Daí a importância de um bom processo de facilitação, o que sugere a troca do provedor de conhecimento por uma figura capaz de fazer com que os aprendizes cheguem ao conhecimento com o máximo de autonomia, aprendendo a aprender.

Algumas das escolas citadas como as mais inovadoras do mundo já apontam nessa direção, como a Kaospilots, na Dinamarca, a Escola da Ponte, em Portugal, a Minerva, nos Estados Unidos, e o modelo Lumiar, no Brasil. No segmento público brasileiro, algumas escolas também estão adotando essas metodologias, como a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e a Escola Estadual de Ensino Profissional Joaquim Antônio Albano, em Fortaleza, CE.

Veja também:

Parte 3 – Omni disciplina

Parte 4 – Aprendizagem Informal

Parte 5 – Upskilling

Parte 6 – Lifelong Learning

Existo, logo aprendo – Parte 1: Educação X Aprendizagem

Como aquecimento para nossa participação no SXSW EDU 2019, vamos compartilhar ao longo dos próximos dias alguns dos aprendizados da edição passada.


 

" Educação é o que as pessoas fazem com você; e aprender é o que você faz consigo. "
Joi Ito

A reflexão proposta pelo diretor do MIT Media Lab provavelmente passou pela cabeça de muitos outros pensadores antes dele, mas ninguém conseguiu sintetizá-la de forma tão simples e clara. “Mas o que isso tem a ver com tendências?”, alguém pode perguntar. Talvez o fato de que a aprendizagem, hoje, está finalmente no caminho para ser o centro das “preocupações” quando falamos em educação.

“Ora, mas isso é óbvio, e sempre foi assim”, vão dizer. Será mesmo? Para responder a essa questão é importante levar em conta o quanto educação e aprendizagem estão realmente ligadas, não na teoria, mas na prática. Pensando com base na reflexão do professor Joi Ito, podemos até mesmo afirmar que, em certa medida, os dois processos seguem direções opostas, já que um deles é essencialmente externo, “de fora para dentro” (educação), e o outro é essencialmente interno, “de dentro para fora” (aprendizagem).

Na série O começo da vida, um dos exemplos trazidos deixa isso bem claro ao mostrar a diferença de aprendizado entre bebês expostos a duas línguas distintas: no primeiro grupo, em que as crianças conviviam com adultos falando os dois idiomas, o aprendizado foi muito maior do que no segundo grupo, em que elas apenas eram expostas às línguas por meio de programas de TV.

Podemos dizer que o experimento provou, na prática, que os bebês do primeiro grupo estavam mais engajados do que os do segundo e, por isso, foram mais capazes de se apropriar do próprio processo de aprendizagem. Em ambos os casos, houve uma tentativa de educação (de fora para dentro), mas com aprendizado (de dentro para fora) completamente diferente.

Talvez por isso estejam entre os pontos centrais das discussões em torno da educação a aprendizagem personalizada e a aprendizagem centrada no indivíduo em suas diversas formas. Falar isso não é novo, mas provavelmente os olhares nunca estiveram tão voltados para isso como agora.

O cerne da questão está em “decifrar” o que isso verdadeiramente significa, já que as pessoas (incluindo os profissionais de educação) tendem a pensar que aprender de forma personalizada depende de receber um ensino personalizado, isto é, plenamente conectado com a forma como cada indivíduo aprende e apreende (fixa o conteúdo). A mesma linha de raciocínio tende a acontecer quando se pensa em aprendizagem centrada no indivíduo.

Isso ajuda, mas não resolve. Vale lembrar que a educação necessariamente passa pela aprendizagem (na família, na escola, etc.), mas a aprendizagem independe da educação – é um processo visceralmente ligado à pessoa que aprende. Nesse sentido, a educação tenta promover processos de aprendizagem que levem o indivíduo ao futuro e o permitam não apenas sobreviver nele, mas fazer dele algo melhor do que o passado.

Para que essa função da educação se cumpra plenamente, é preciso mexer no modelo mental, conferindo mais valor ao processo de dentro para fora, isto é, a aprendizagem. A educação do futuro deixa de ser “o que as pessoas fazem com você” para se tornar um elo entre o indivíduo e o aprendizado – na prática, de forma muito simples, um processo de facilitação. Isso porque a aprendizagem efetiva, como foi ilustrado no experimento com os bebês, depende do engajamento de quem aprende, da apropriação que a pessoa faz da própria aprendizagem. Para que isso ocorra, é preciso preparar o terreno.

Nos próximos posts vamos falar sobre aprendizagem baseada em contexto, omni disciplina, aprendizagem informal, upskilling e life long learning. Fiquem ligados!

De volta ao jardim de infância?

Mitchel Resnick, professor do MIT, acha que o jardim de infância foi a maior invenção do último milênio. A justificativa pra isso é a forma como as crianças aprendem, baseada no que Resnick chama de os “quatro P’s da aprendizagem criativa”: Projects, Passion, Peers, e Play. Em uma tradução livre para o português: Projetos, Paixão, Colegas e Brincadeiras.

(Nota: esses quatro itens estão presentes em uma criação da equipe de Resnick, o Scratch, uma linguagem de programação que eu e o Marcos aprendemos em um workshop no SXSW em 2017)

Agora, Resnick também acha – e eu obviamente concordo – que o espírito do jardim de infância e seus quatro P’s devem também guiar a forma como os adultos aprendem. Ou seja, aprender através de projetos, sobre coisas que sejam do nosso interesse, fazer uso da aprendizagem social e, porque não, de forma lúdica.

Essa parece ser uma abordagem apropriada para que a aprendizagem tenha sentido para nós e que talvez derrube a “obrigação” do aprendizado, que é um ofensor importante no mundo corporativo. Vou explicar melhor: um dos desafios da aprendizagem corporativa é vencer o sentimento de imposição que as pessoas têm em relação aos conteúdos oferecidos. Elas estão fazendo aquele e-learning sobre vendas ou compliance porque sentem-se obrigadas e não porque veem benefício naquilo. Diferentemente de uma pós-graduação a distância ou qualquer conteúdo disponível em MOOCs, por exemplo. (obrigado pela comparação, Caco!)

O desafio então é criar uma cultura de aprendizagem que tenha referências desses quatro P’s. Desenvolver conteúdos que motivem e façam sentido para as pessoas, que elas possam aprender e trocar experiências com seus colegas de trabalho e que estimule a tentativa e erro. Não estamos falando de desenvolver conteúdos de fácil resolução, mas sim que tenham significado para as pessoas.

Quais são os caminhos possíveis para isso na opinião de vocês?

Referências:

Matéria do Quartz (sempre ele!) sobre o assunto: https://qz.com/1535315/why-an-mit-professor-says-we-should-all-learn-like-kindergartners-if-we-want-to-succeed/

TEDxTalk de Resnick sobre o tema: https://www.youtube.com/watch?v=IfvgVpQI56I

3 dicas sobre Proficiência Digital

Nos dois posts anteriores, conceituamos Proficiência Digital e eu contei um caso sobre como não fazer o processo de adoção de uma nova solução digital no ambiente de trabalho. Agora, em um post rápido, eu quero falar sobre pontos que devemos considerar na hora de adotar uma nova tecnologia no ambiente de trabalho. Me inspirei neste conteúdo da Elizabeth Marsh para falar sobre o assunto.

Vamos lá?

Defina o que é Proficiência Digital na sua organização

Começo concordando com Elizabeth em um ponto: é preciso conectar o conceito de Proficiência Digital com os objetivos da sua organização, de uma maneira ampla e ambiciosa. Pode parecer um paradoxo, mas faz sentido. Essa definição te ajuda a entender o projeto, a vendê-lo internamente e chamar atenção das pessoas que importam.

Para mim, a Proficiência Digital tem a ver com promover uma integração maior entre pessoas e um ambiente de trabalho cada vez mais… digital. Ou seja, trata-se de deixar as pessoas mais confortáveis com essas novas ferramentas e ambientes, de modo que elas consigam enxergar benefícios e usá-las ao seu favor. Isso é uma definição ampla. A parte ambiciosa é fazer com que essa adoção da tecnologia signifique resultados para a sua empresa e o estabelecimento de cultura organizacional mais aberta para novidades.

 

A Proficiência Digital é mais do que uma iniciativa isolada na organização

Pensar em Proficiência Digital é bem útil durante a implantação de uma nova solução ou tecnologia. Porém, ainda mais útil quando pensamos de forma abrangente na organização. Um programa geral de Proficiência Digital pode ajudar a desenvolver as habilidades técnicas necessárias para um ambiente de trabalho que muda com muita frequência.

Além disso, dependendo do público, é possível pensar em uma série de maneiras de desenvolver esse programa: sala de aula, workshops, tutorias, pequenas tarefas digitais. Tudo isso, pensando em pessoas que tem nenhuma ou pouca proficiência. Uma vez que a exposição ao universo digital aumenta, podemos ainda pensar em outras possibilidades de formação.

 

Aproveite a habilidade atual das pessoas e o aprendizado social

Meu primeiro emprego era o que hoje é chamado de “Desenvolvedor Front-End”. Em 2001, eu era o “cara do HTML” em uma agência em Belo Horizonte. Basicamente, pegava o layouts produzidos pelos designers no Adobe Photoshop e transformava-os em páginas lindas para a internet. Sabia mais ou menos como fazer, mas fiquei bom no negócio porque aprendi fazendo e tive a tutoria – muitas vezes informal – de alguns colegas mais experientes.

18 anos depois, estou trabalhando com educação corporativa, mas tudo bem. A lição dessa época é aproveitar as pequenas demandas do dia a dia e as oportunidades de aprendizado social para estimular o desenvolvimento da Proficiência Digital no dia a dia da sua empresa. Deu certo comigo, vai dar certo com você.

 

Vamos falar sobre proficiência digital? – Parte 2

No post anterior, falamos sobre a importância da proficiência digital nas organizações e demos três dicas para promover essa habilidade no seu ambiente de trabalho:

  1. Entenda quem precisa ser alfabetizado, ser fluente e dominar a tecnologia;
  2. Colocar contexto na aplicação e no treinamento;
  3. Estimular a troca de experiências entre as pessoas do seu time.

Relendo o texto, esses três passos parecem bem claros e sem mistério. Gostaria de saber disso antes de tentar implementar algumas soluções digitais nos lugares que trabalhei. Conforme havia falado também no post, prometi compartilhar sobre como não fazer essa implementação no ambiente de trabalho. Seguem duas experiências. 🙂

Tentei centralizar as tarefas do time do jeito mais difícil

Em 2014 e 2015, eu fiz uma jornada dupla de trabalho, dividindo o meu tempo entre a 42formas e o Comitê Organizador da WorldSkills São Paulo 2015. A WorldSkills é a maior competição de educação profissional do mundo, promovida de dois em dois anos pela organização WorldSkills International em parceria com o membro local. No Brasil, esse membro é o SENAI. (Falamos sobre a edição de 2017 aqui).

Eu estava no time de comunicação do comitê brasileiro, que tinha em torno de dez pessoas e também fazia interface com outras áreas do projeto. Havia pessoas em Brasília e São Paulo, além dos membros da WorldSkills International, que ficam espalhados pelo mundo. (Nota: trabalhar nesse projeto me fez entender como é possível criar estruturas descentralizadas, mas isso é outra história). Era preciso conectar pelo menos as pessoas aqui do Brasil, tentar diminuir um pouco da carga de e-mails e centralizar as informações. Pra isso, tentei empurrar o Basecamp e o Slack para o time. Criei um projeto demo nas plataformas, estudei mais ou menos como elas funcionavam e achei que todo mundo iria entender uma ou outra. Errei rude. Não que sejam soluções complexas, longe disso. Mas não tínhamos tempo para aprender a usar, especialmente em um projeto de tiro curto, onde as entregas sempre se sobrepõem às curvas de aprendizado.

Sabe o que funcionou bem? O combo Trello + reuniões presenciais ou via skype. E o mais legal foi que o time decidiu isso em conjunto. Ou seja, ao invés de pensar em algo mais complexo, optamos por uma ferramenta simples e que funcionava bem com a interação do time. Direto ao ponto, não?

Tentei estimular a produção de conteúdo…

Depois, já perto da competição, estávamos pensando nos apps que iriam para os tablets dos participantes: competidores, chefes de delegação e afins. Além do aplicativo do evento e de documentos importantes, estávamos pensando no que poderia estimular a produção de conteúdo durante o período. Na época, maio ou junho de 2015, o Periscope havia acabado de ser lançado para Android e o Twitter estava na febre dos vídeos ao vivo. Não tive dúvidas, sugeri a instalação do app nos tablets! Todo mundo achou uma boa ideia, seria incrível ver a visão “de dentro” da competição, diferentes histórias e tudo mais.

Porém, não foi bem assim. A adoção foi muito baixa, possivelmente porque as pessoas estavam preocupadas com a competição, não sabiam como contar histórias por dispositivos móveis ou não tinham paciência/saco para o Twitter.

O que faria hoje?

Teria sido muito mais fácil entender qual era a necessidade das pessoas antes de chegar sugerindo ferramentas. Esse é o maior aprendizado. Na imensa maioria das vezes, estamos bem intencionados e queremos colocar tecnologias que ajudem no dia a dia. Afinal, quem não gostaria de diminuir a carga de e-mails ou ter os arquivos centralizados em um lugar só? Porém, pecamos na ansiedade, por não entender quais são as reais necessidades das pessoas ou qual é o nível de tutoria e apoio que elas irão precisar na adoção da solução digital.

Por isso, da próxima vez entenda o cenário, pesquise e pergunte. Pode dar mais trabalho no curto prazo, mas é melhor do que chegar falando “ei, essa é nossa nova ferramenta para [INSIRA AQUI A DEMANDA]. Usem ela a partir de hoje”.

Eu gostaria de ouvir casos semelhantes. Conta a sua experiência pra mim aqui nos comentários? 🙂